Poeira na Janela
Estou queimando a pouca lenha que me resta. As coisas perderam um pouco do sentido. Nesses tempos de enxurrada, poças d'água não são vistas. Poderia eu pisar uma a uma, ondulando o avesso para me completar nas tremulações dos reflexos. Mas tudo se perdeu. As pedras, as calçadas, a rua que vira à esquerda, a chuva fina que molha o vidro da janela e que não ousa entrar. É isso. Falta-me ousadia de existir. Pensei que jamais voltaria ao espaço esquecido. Porque esquecer é cair para baixo dos panos. Algo que perdeu a utilidade por requerer muito tempo. Alguns míseros minutos de um dia que se estende como uma toalha pequena em uma mesa maior. São tantas as cadeiras vazias. As ausências que ocupam espaço. Os desconfortos encostados em almofadas coloridas. É uma pena que as coisas tenham caminhado por este rumo. Sem norte e sul, mas um emaranhado de ideias de passos marcados em terra molhada que apenas suja os sapatos. Daí a vergonha de voltar para casa e manchar os tapetes, arranhar o pi...