Poeira na Janela

Estou queimando a pouca lenha que me resta. As coisas perderam um pouco do sentido. Nesses tempos de enxurrada, poças d'água não são vistas. Poderia eu pisar uma a uma, ondulando o avesso para me completar nas tremulações dos reflexos. Mas tudo se perdeu. As pedras, as calçadas, a rua que vira à esquerda, a chuva fina que molha o vidro da janela e que não ousa entrar. É isso. Falta-me ousadia de existir.

Pensei que jamais voltaria ao espaço esquecido. Porque esquecer é cair para baixo dos panos. Algo que perdeu a utilidade por requerer muito tempo. Alguns míseros minutos de um dia que se estende como uma toalha pequena em uma mesa maior. São tantas as cadeiras vazias. As ausências que ocupam espaço. Os desconfortos encostados em almofadas coloridas. É uma pena que as coisas tenham caminhado por este rumo. Sem norte e sul, mas um emaranhado de ideias de passos marcados em terra molhada que apenas suja os sapatos. Daí a vergonha de voltar para casa e manchar os tapetes, arranhar o piso, empeirar os cantos e sujar as vasilhas.

Sorte a minha que tenho algumas plantas comigo. Trazem a esperança pela cor e pela forma. São verdes na escuridão e buscam a luz crescendo pelas encostas de seu desejo de sobrevivência. Conheço isso. Também desejei ver o sol ao meio-dia. Hoje desejo pouco porque passei a acreditar que tudo já foi escrito. E nada de novo pode acontecer com as palavras.

Se persevero neste campo minguado, é porque acredito que ainda sou humano e posso fazer algo de bom com as próprias mãos. Do contrário, já teria apagado a luz e deitado para dormir. O sol acabou de de se por. Mais um dia se foi com ideias de sucesso não praticadas. Mas viver, por si só, já é a compensação da arte que o relógio marca com os ponteiros. Jamais pensei que pudesse ver o trem passando da minha sala, e hoje sou realizado por  simplesmente vê-lo passar sem me levar para qualquer lugar.

O lugar a que pertenço é aqui, onde posso ser eu nas angulações do ponteiro que, ora aumenta, ora diminui, mas sempre se movimenta, insistindo em amadurecer as ideias que se perpetuam na ânsia de fazer ouro com as frutas da fruteira, ou com os pratos do armário. É tudo tão banal perto do ser subentendido. Como a prática de ler ao contrário e escrever com a mão direita, mesmo sendo canhoto e tendo o coração batendo do lado esquerdo do peito.

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