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Mostrando postagens de setembro, 2022

Poema Vazado

Hoje o dia está mais claro. Tudo tem uma cor. Palavras. Escritas no caderno verde. Falaram da vida.  Três páginas sobre a vida. A noite já chegou.  As plantas estão regadas.  A casa varrida.  Tudo em seu lugar. Alguma coisa em meu peito. Eu não consigo distinguir. Passando dos meandros do coração. Esvaziou a poesia que nasceria. Versos em pontos finais. Final. Começo inexistente. Queria vírgulas na brutalidade. Amaciar a carranca mal-humorada. Sabe... Chega dessa estrada esburacada: Gosto do vento entrando pela janela, Fazendo sua volta, enchendo a casa de opções, De presentes, deixando o tempo no tempo E a vida dentro de mim. Agora ficou claro: a culpa é dos pontos finais.  Em meu peito sempre existiu uma história Sendo escrita.  Nada acabou.  E mesmo que eles existam, Os pontos, Estão entre vírgulas. Entre dois E a suavidade das reticências... Que ironia!  Seria então o campo das histórias plantadas? Ou a falta de sentido na via do destino? Nada...

Ciranda da Vida (OK)

É, vida! Você cisma em brincar comigo de ciranda. Venda meus olhos e começa a girar. Fico perdido no meio da roda tentando agarrar uma das suas mil faces. Ouço risos e passos; mais gente chegando e se juntando. A música continua sem que eu nada possa ver. Mas sinto a brincadeira no coração quando ele harmoniza as batidas ao jogo. Que jogo! Já caí algumas vezes no centro da roda; noutras, consegui agarrar alguém e juntei-me à corrente de braços dando os meus. Girei, girei e girei. Cantei e corri no torvelinho de sonhos e luzes de uma manhã ensolarada. É, vida! Quanta magia guarda consigo no galho de uma árvore? Quando pendura sob ele um balanço e me faz sentir o vento. Nem sempre fui capaz de perceber estas coisas. Lembro-me dos vitrais de uma catedral lançando-me as cores de uma história incompleta. Também me lembro de você, vida! Quando guardava caixas no guarda-roupas para enchê-las de memórias. Ou quando fazia do passado um abraço não dado, plantado como muda na horta de um velho ag...

O Estressado

Certa vez eu parei em um ponto de ônibus, encontrei-me com um estressado, e ele me disse: — Hoje eu surtei. Explodi. Deixei o leite derramar sobre o fogão e não limpei. Nem vou. Nunca fui. E é assim que eu seguirei. Ninguém percebe se eu faço ou não faço, se limpo ou se sujo. Todos, eu digo, não estão nem aí. Aí, ali e aqui. Não estão em nenhum lugar. Tampouco minha paz. Não consigo encontrá-la. Você sabe? Sabe como faço para desfazer minhas preocupações? Sabe como faço para calar as vozes que ouço dia após dia? Sabe como desaperto meu peito ou como desato os nós que atei sem saber? Houve semanas de muito aprendizado, e meses de estagnação. É, meu amigo. Eu estagnei. Estou parado sem querer. E, sem querer, também parei de aprender. A casa ficou suja e os livros empoeirados. A caneta se perdeu atrás de algum móvel que eu tive preguiça de arrastar. Ah, não! Não é preguiça. É revolta. Revolta por eu não ser visto. Ou por eu acreditar que tudo é em vão. Na verdade, mesmo, é que eu estou es...

Mares que Deixei

Escrevi uma carta sem eira nem beira, Pelo simples prazer de ver o contorno Das letras cursivas formando palavras Que diziam algo.  Algo que eu queria dizer. E não disse. A carta se perdeu horas antes de eu me sentar de novo, Para enfim recomeçar: Agora entendo que estou escrevendo Buscando a preciosidade ímpar Em meio aos barrancos. Eu, que tanto escrevi, não sei mais escrever Sem pensar no que vai ser Quando  minha letra despendida em botões, De uma florada mal cultivada, Finalmente florir. Aqui, bem aqui, você pode dar forma ao ego. O meu tem barbatanas e nada pela imensidão Das ondas e ondas quebradiças Dos mares que deixei para trás. Confesso que não foram tantos. Algumas lagoas; outros, córregos; Mares mesmo, poucos. Nessa dança de marés,  O ego quebrou as correntes, Fantasiou-se com escamas coloridas E plantou-se no espelho d'água  Misturando-se com as carpas Que eram inocentes. Agora já é noite.  Toda água é mistério. E todo mistério, um novo caminho. Eu...

Realidade Desaparecida

Já percebi que depois da chuva de pensamentos vem o vazio. Mas o vazio não é escuro. Ele é bem bagunçado por sinal. É uma mistura de cores indo e vindo dali e daqui, De luzes cujas origens eu desconheço. No vazio não tem nada. Mas tem umas formas estranhas, indescritíveis. Algo beirando o irreal, caso eu não as sentisse.  Sim, pois não posso dizer que as vejo ou as toco. Eu apenas sei que elas estão lá. Diferentes de tudo, Compondo o vazio depois da chuva.  Quando penso nelas e em uma forma de descrevê-las, Canso-me. Perco a paz. Pontos brilhantes aparecem, Formigando a consciência. Daí o vazio se dissipa e os pensamentos retornam. A vontade de entender é uma armadilha. A curiosidade, traiçoeira.  A indiferença, nessas horas, uma amiga. Porque para contemplar o vazio, precisa-se dela. Indiferentemente, as formas vão ganhando aspectos Que passam como fumaça por todas as direções. Se me perguntarem: do que está falando? Bem, a verdade é que eu não sei. Disseram para eu cont...

Cada Planta...

Cada planta sofre ao seu modo. A hortelã secou no início com a falta de água. Não chegou a morrer. Agora cresce feliz e contente com seus quatro galhos plantados no vaso. O cacto-macarrão sentiu quando troquei sua terra e o passei para um vaso maior. Na primeira noite ele murchou um pouco, mas depois se acostumou com o espaço. Hoje se encontra feliz, crescendo para todos os lados. A orquídea, depois de ter sido derrubada várias vezes, achou seu lugar de paz.   As suculentas da bacia encontraram seu paraíso na terra. Bem, a marcela segue estática, sem mostrar sinais de melhora ou de piora. Também tem a rosinha desconhecida de cor magenta que permanece entristecida no canto. Suas folhas para baixo não se alegram com o sol. Tampouco se revigoram com a água. Contudo, ela segue mantendo sua beleza, sua cor e sua delicadeza, sozinha e pensativa, onde acredito que encontrará o caminho para crescer. Agora, o dinheiro-em-penca está cada dia mais amarelado. Não se acostumou aqui. Nada f...

A Senhora dos Olhos d'Água

Esta é uma história real. Bem diferente dos sussurros da minha mente. Aconteceu, de fato, e será transpassada ao eterno pelas palavras aqui empregadas. Por isso, com caráter descritivo, trarei de volta uma experiência marcante, acolhedora e muito, extremamente singular. Íamos eu e Otávio à loja de vasos de argila para comprarmos uma bacia e plantarmos as suculentas que havíamos comprado no dia anterior. Foram quinze mudas, ao todo, para fazermos o arranjo perfeito. Bem, o fato é que, ao sairmos da loja, encontramos uma senhora de idade avançada, lá para os seus setenta e tantos anos, debaixo do sol a pino, a chamar-nos. — Por favor — disse-nos fazendo um sinal com as mãos —, vocês poderiam chamar um Uber para mim? Eu moro bem perto daqui e não trouxe celular. Caríssimos, nessas horas a gente pensa de tudo. Porque tudo é surpresa. A primeira impressão foi a que se tratava de um golpe, como tantos por aí. Olhei para Otávio e ele retornou o olhar. Enfim, fomos até ela saber do que se trat...

Poderia Ser

Aqui, exatamente aqui, neste lugar: Voltei a ser artista, contornando com as palavras As nuances de uma tela em branco, Os adornos de uma noite estrelada, A vontade de pintar uma paisagem mas não conseguir. A vida continua passando, isso todos sabem. O que ninguém sabe é: Onde é que ela passa? Seria então nos diários secretos, onde estão escondidas As páginas que descrevem as paisagens não pintadas; Ou poderia ser, também, nas notas de uma melodia ao fundo, Enquanto os personagens atuam sob às luzes. Bem, para ser sincero, eu acredito que ela passa, sim, Nas marcas evidentes do tempo que não para. Isso é tão obvio.  Existe um mistério por detrás: da arte às horas, Das horas ao dia que se esvai, surgem mais cores. Secretas! Fora dos jardins, dos ninhos e dos entardeceres. Estão presas no imaginário do artista que não consegue pintar, Como uma cena não descrita ou um coadjuvante Que morreu antes mesmo de existir. Não estou falando de espaços vazios, mas da contingência Do que poderia...

Jogo de Viver

Ontem à noite pude sentir a força de algumas palavras. Hoje pela manhã elas eram apenas lembranças de uma incerteza. Pois bem! Percebi, inteiramente, que os pensamentos que venho carregando na mente não me definem; tampouco eu os defino. Eles vêm como uma chuva torrencial avançando pelos espaços do firmamento. O chão, minha consciência, se molha e toda plantação é perdida. Enfim, tudo isso não sou eu. Aprendi como alguém aprende abrindo um pote secreto, há muito enterrado, e descobrindo seus mistérios. Foi exatamente assim que aconteceu. Quando separei os pensamentos da consciência, a chuva ficou mais fraca, assemelhando-se a uma mísera neblina. O chão, orvalhado, mais bonito. Percebi, também, que tudo tem uma conexão muito forte com o coração. Os pensamentos invasores costumavam derramar um líquido fervente nele. Ele, por sua vez, se agitava e se descontrolava. Os impulsos plantados eram diversos.  Foi o fim de uma fase, com certeza. Nenhum pensamento é capaz de derramar as quanti...