À Margem

 Quanto tempo não apareço nesta terceira margem de mim. Neste iluminado pôr do sol, de nuvens prateadas pela timidez de uma tempestade. Que vergonha é esta? Da nuvem ser nuvem, do sol ser sol, de mim ser um outro qualquer. Por que não posso ser eu mesmo?

Ainda escrevo, mas perdi alguma coisa que não sei o que é. Queria sentir aquela sensação de estar por aí, andando sem rumo, tropeçando nas palavras para me moldar como ser que pensa e esfarela cada pensamento. Migalhas. Luzes de outras janelas. Eu me perdi, de fato. E está difícil me reencontrar.

Esta fase está chegando ao fim. Outra estrada. Desafio de cem noites, saindo de mim para me tornar alguém que tem forma. Tantas coisas mudaram. Esta janela à minha esquerda mostra outra paisagem. Mais bonita, tanto que jamais imaginei que pudesse existir.

As plantas crescem lentamente. Muito embora eu perceba cada nova folha exposta. Vivo de aprender, encontrando nos livros um apoio para caminhar. Uma armadilha de palavras para prender pássaros em gaiolas. Uma hora e meia depois de morrer, eu aprendi a renascer. E todas as manhãs faço o que tem de ser feito.

Para isso, tenho de lidar com a saudade. Saudade de me olhar no espelho e ver um menino. A escrita tem futuro a partir daí? As pessoas não leem mais; ninguém se dedica a isso. Mas tenho que manter a esperança polida. Refletindo a verdade que é raio de sol. 

Talvez eu redescubra o caminho para o meu coração nos próximos pontos finais. Preciso mesmo reservar um tempo para mim e rever o passado. Acreditar nos antigos sonhos empoeirados. Tirar da estante o álbum esquecido para cair de mim, pulando de precipício em precipício sem conhecer as profundezas. A margem sempre foi ponto de apoio. Vivo nela, marginalizado das entranhas de mim. Eu me expulsei. Não aguentava mais olhar para aqueles olhos orgulhosos. Ser o que não é.

Eu mesmo nunca fui. Gosto de coisas simples. De tomar sol quando molho a cabeça. Subir uma montanha para ver as outras. Imaginar janelas. Pontos finais. Tantas vírgulas. Agora é hora de existir.

Vejo telhados e chuva. Quero me distrair para não sentir o tempo passar. Um tipo de doença comum no meu tempo. Contudo, espero me curar com a força de vontade. Voltei neste espaço para dizer que sobrevivi às perdas de mim nos últimos anos. Queria falar mais sobre velhas canções, sentimento de piso gelado e mosquitos na luz da varanda. Nenhuma voz ao longe, apenas cigarras nas árvores dizendo ser o fim do mundo. Era a paz desconhecida. Era o desejo de vitória. Sujar as mãos de terra e ver algo novo nascer.

O que eu sou depois de tudo isso? Algo me resta, mas ignoro o presente. O tempo para mim acabou. Já não suporto compartilhar os pensamentos com o escritor enjaulado que definhou na escuridão de um quarto pequeno e abafado. Agora que o vento adentra, desaprendi a juntar as palavras para dizer a verdade. É tudo ilusão. Sonho de contramão. No mais, páginas rasgadas que não se perderam porque jamais estiveram no papel. Tudo orquestrado para durar, apesar dos pesares e das tardes singulares que perdi por não saber existir longe de mim.

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