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Mostrando postagens de agosto, 2022

Janelas Fechadas

Eu, que vi as janelas se fecharem, caí de joelhos no quarto de dormir.  Antes de anoitecer, já era noite em minha casa. Já havia tomado o escuro pelo braço e caminhado pelos corredores de muitas portas. Essa casa... Bem, essa casa não era de tijolos nem de pedras. Não tinha móveis ou obras de arte. Apenas muitas portas e janelas. Que se abriam e se fechavam, aqui e ali, batendo e rebatendo, contando e descontando suas intenções escondidas. Portas e janelas! Não é hora de chorar pelos textos que não escrevi. Aqueles que passaram por minha mente, nas frestas do ocaso, brincando na casualidade dos fatos. Depois, foram-se embora até se perderem. Eu nunca mais os encontrei. Embora saiba que um dia eles caminharam pelos corredores de minha casa. Tais textos nunca foram meus. Não tinha como escrevê-los. Vieram de surpresa, preenchendo os espaços vazios. Tacando fogo na escuridão. Lampejando de sonhos a miríade de ilusões que se fantasiavam de verdade. Foi triste a partida. Na ventania, pu...

Rios Acima

Hoje acordei com a claridade do dia. Entrando pelas janelas, invadindo meu interior. O sol, dissipando incertezas e frustrações, Disse-me que era hora de acordar de mim mesmo. Andando pelo quarto, a passos lentos, percebi Que ainda dormia do avesso. Fiz o café, sentei-me à mesa e pensei: Que horas são? O despertar tem de ser agora. Abri os olhos da alma; sensualidade oblíqua da verdade. O sol, os raios, as manhãs, o céu azul e o vento lá fora Entraram! Cantaram ao dia que marcou Entre idas e vindas, a essência de uma flor Gotejante em pétalas pelos caminhos andados. Hoje, enxergo que sou mais. E posso ir além. Nadar contra a correnteza, Descobrindo a beleza de rios acima.

Não Falei

Eu perdi alguma coisa da qual não me lembro. Ela estava aqui e de repente não estava mais. Foi-se o tempo das grandes reflexões, dos estudos gerais, dos amores invernais e das flores de setembro, amarelas, como a alegria de se viver um sonho acordado. Eu não acordei, tampouco sonhei. Sonho para mim foi uma costura precisamente planejada em uma toalha branca, pouco desbotada com o tempo. Lá, no vai e vem da agulha, furei os dedos e manchei de sangue aquilo que devia ser para mim o sonho. Depois, caminhei por ruas. Descalço, fingindo ter sob meus pés algo que me protegesse. A solidão me assustava. Sentia frio.  Fora do quarto, tudo era mais claro. Mas por mais que eu tentasse sair, eu acabava me prendendo de novo, e de novo, tornando a me enclaustrar nos pensamentos mais cruéis que minha mente fosse capaz de criar. E ela criou. Vários! Eu quis acordar, é claro... Mas, algo me puxava. Larguei da mão o peso das palavras, o tesouro que julguei possuir. Tudo ficou tão raso, tão simples, ...

Sonho Toda Noite

Foram-se os papéis rasgados,  As tardes vazias  E as sombras das paredes. O relógio parado voltou. Agora não mais contando horas, minutos, segundos... Mas mostrando paisagens.  O relógio é a minha paisagem. Nele, eu contemplo o presente, Navego oceanos, crio labirintos para me perder. É a janela aberta. O ar entrando. O passo lento do menino Que desaprendeu a correr. O jeito certo de criar e criar expectativas frustradas sobre o entardecer Que nunca chega. É manhã todo dia. É dia de noite, E a lua chorando, mostrando retratos nos interstícios dos ponteiros. Não há ponteiros. Não há lua.  O relógio é uma criança brincando comigo Que um dia já fui relógio. Hoje, que já se foi, fui homem sério que se perdeu. Quis ser menino de novo, correr por aí e brincar pelo chão. Por isso fechei os olhos para sonhar. Que linda paisagem tive orquestrada. Que lindas cores da infância recuperei. Eu, risonho com as nuvens do céu, voltei a acreditar que eram feitas de algodão. Voltei a v...