Não Falei

Eu perdi alguma coisa da qual não me lembro.

Ela estava aqui e de repente não estava mais.

Foi-se o tempo das grandes reflexões, dos estudos gerais, dos amores invernais e das flores de setembro, amarelas, como a alegria de se viver um sonho acordado.

Eu não acordei, tampouco sonhei. Sonho para mim foi uma costura precisamente planejada em uma toalha branca, pouco desbotada com o tempo.

Lá, no vai e vem da agulha, furei os dedos e manchei de sangue aquilo que devia ser para mim o sonho.

Depois, caminhei por ruas. Descalço, fingindo ter sob meus pés algo que me protegesse. A solidão me assustava.

Sentia frio. 

Fora do quarto, tudo era mais claro. Mas por mais que eu tentasse sair, eu acabava me prendendo de novo, e de novo, tornando a me enclaustrar nos pensamentos mais cruéis que minha mente fosse capaz de criar.

E ela criou. Vários! Eu quis acordar, é claro... Mas, algo me puxava. Larguei da mão o peso das palavras, o tesouro que julguei possuir. Tudo ficou tão raso, tão simples, tão igual.

O sentimento incondicional se perdeu, e no emaranhado de condições um outro tomou seu lugar. Confesso que não o conheço, e temo o seu propósito.

Tal manifesto me tolhe a alegria. Alegria de sonhar. De viver em jardins, contemplando mudas cantantes. A melodia das folhas.

Eu quis muita coisa. Hoje trabalho em não querer mais. 

Perdi muitas horas querendo, quando podia apenas contemplar o céu e ver estrelas. 

Gosto de imaginar o quão distante estão de nós. Mesmo sendo impossível.

Gosto de impossíveis. E por isso parei de querer. 

Parei de condicionar sonhos, plantando-os em vasos de flor.

Eles crescem onde são necessários.

Agora, adormecido de viver: a cama não é confortável, mas acolhe. 

Percebo que passei muito tempo sem escrever. As palavras estão surgindo fora do meu controle.

Queria abrir margem ao amor. Mas o amor mudou de forma. 

Queria? Não, não queria. Não quero! Sou fumaça de uma cachoeira, sem saber aonde vai. 

O vento, sim, que me leva até as encostas dos desejos. Mas o ignoro. 

Falei de sonhos, jardins, estrelas e até de uma cascata na ventania. 

Não falei de amor. Não posso falar sobre o que eu não conheço.

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