Janelas Fechadas

Eu, que vi as janelas se fecharem, caí de joelhos no quarto de dormir. 

Antes de anoitecer, já era noite em minha casa.

Já havia tomado o escuro pelo braço e caminhado pelos corredores de muitas portas.

Essa casa... Bem, essa casa não era de tijolos nem de pedras. Não tinha móveis ou obras de arte.

Apenas muitas portas e janelas. Que se abriam e se fechavam, aqui e ali, batendo e rebatendo, contando e descontando suas intenções escondidas. Portas e janelas!

Não é hora de chorar pelos textos que não escrevi. Aqueles que passaram por minha mente, nas frestas do ocaso, brincando na casualidade dos fatos. Depois, foram-se embora até se perderem. Eu nunca mais os encontrei. Embora saiba que um dia eles caminharam pelos corredores de minha casa.

Tais textos nunca foram meus. Não tinha como escrevê-los. Vieram de surpresa, preenchendo os espaços vazios. Tacando fogo na escuridão. Lampejando de sonhos a miríade de ilusões que se fantasiavam de verdade.

Foi triste a partida. Na ventania, pularam as janelas. Não pude prendê-los. Eu não tinha caneta nem papel para fisgá-los. Nem lembranças puderam ser. Causaram a inquietação dos poetas, a impetuosidade dos artistas, a força dos gladiadores; plantaram sementes que nunca nasceram e jogaram garrafas ao mar.

Posso me lembrar de tudo, menos das linhas que se perderam. Se eu não tivesse aqui para dizer, ninguém saberia. Tanto que em meio ao caos das janelas fechadas, vejo nas paredes as marcas dos quadros que já preguei e despreguei. Vejo a mudança contínua na vida rasa de um pardal morando em um mesmo sobrado, estação atrás de estação. E vejo também o que eu poderia ser mas não fui.

Não culpo os textos que se desprenderam de mim, nem a falta da tinta que não marcou o caderno. Aliás, culpa é ter correntes nos pesadelos. Culpar é se acorrentar no peso do mundo. E nele sucumbir.

Busco o que não perdi nesse contexto de noite sem fim. Enxergo além das paredes porque me acostumei a viver em um quarto pequeno. Nele exerci o que pude: aprendi a escrever e fiz dessa história uma ilusão sobre quando abri as mãos cheias de areias. Areias que o vento não levou, por estar com as janelas fechadas.

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