Sonho Toda Noite
Foram-se os papéis rasgados,
As tardes vazias
E as sombras das paredes.
O relógio parado voltou.
Agora não mais contando horas, minutos, segundos...
Mas mostrando paisagens.
O relógio é a minha paisagem.
Nele, eu contemplo o presente,
Navego oceanos, crio labirintos para me perder.
É a janela aberta. O ar entrando. O passo lento do menino
Que desaprendeu a correr.
O jeito certo de criar e criar expectativas frustradas sobre o entardecer
Que nunca chega. É manhã todo dia. É dia de noite,
E a lua chorando, mostrando retratos nos interstícios dos ponteiros.
Não há ponteiros. Não há lua.
O relógio é uma criança brincando comigo
Que um dia já fui relógio.
Hoje, que já se foi, fui homem sério que se perdeu.
Quis ser menino de novo, correr por aí e brincar pelo chão.
Por isso fechei os olhos para sonhar.
Que linda paisagem tive orquestrada. Que lindas cores da infância recuperei.
Eu, risonho com as nuvens do céu, voltei a acreditar que eram feitas de algodão.
Voltei a ver o sol sorrindo entre duas montanhas,
Uma casa simples com a chaminé saindo fumaça,
Uma árvore frutífera no quintal,
Pássaros rasgando o horizonte.
O desenho virou barco e navega por aí.
Minha vida tem sentindo sobre esta toalha bordada,
Tem estrelas no céu, plantas nos pomares e sonhos toda noite.
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