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Mostrando postagens de julho, 2023

Retalho e Tempestade

Voltei querendo ser tempestade, para rasgar os breus do meu desconhecido. A briga pelo que julgo ser meu prevalece em dias como este, mesmo eu não tendo nada. Mesmo a chuva tendo passado e a tarde cinzenta se prolongado com franjas tímidas de sol. Firmando a raridade dourada do que se diz valioso. Como se valor fosse medido por resplandescência. Mas, talvez, uma linguagem rebuscada feito esta para tratar de coisas simples tenha seu alicerce condenado pelo silêncio de uma tarde qualquer. Já não sou eu que escrevo. Gosto mesmo é das páginas. Elas possuem poesia ainda que estejam vazias. Confesso que foi por aqui, nestas linhas marginais, que me fiz como condutor de orações. Se passei para o caderno foi porque mantive firme as raízes no deserto que, mesmo tendo abundância de sol, nunca resplandecia. Sempre tinha a mesma cor ocre; um dourado fosco formando o horizonte de quem sonhava com montes verdejantes. Encontrei na capa de um caderno verde uma razão para seguir adiante. Não falava mai...

Tempestades Perdidas

Sei que estou escrevendo pouco por aqui. Tenho gostado de sentir a caneta no papel. Bater teclas ficou menos intenso. Mas insisto. Aqui foi que me fiz. Existe um ponto que separa duas vidas. Algo que marcou para sempre as pegadas na areia e distinguiu aquilo que foi escrito antes daquilo que se escreveu depois. O tempo pode carregar gracejos quando se tem olhos de criança. A nostalgia é apenas uma pena que se desprendeu da ave, passando a voar pelo vento e não pelo movimento de quem realmente voa. Ainda tenho saudade das aves pela manhã. Gosto de escrever sobre elas, como forma de marejar a mente. Não os olhos, mas a mente. Os olhos já marejaram demais. Desaguaram quando acertei os ponteiros e depois não correram um rio sequer. A mente é que brinca de ter vista para o passado. Costuma chorar por manhãs silenciosas. Sempre querendo mais um momento de oração e intimidade com o divino. Divino que ela própria desconhece. São as entrelinhas querendo destaque. É mais um problema de orgulho d...

Memorial da Janela

Janela. Foi o primeiro “livro” que li. Da minha casa, a paisagem era outra. A janela de madeira, cuja função seria a de abrir suas abas para os dois lados, representando o livro fantástico dos meus sonhos, mantinha um segredo que só eu conseguia decifrar. Foi assim que aprendi a ler, ao primeiro momento, a paisagem que tinha ao meu alcance. Fui uma criança solitária. O último filho. O último neto. O último de muitas coisas. Contudo, aprendi a colocar a linha de chegada um passo adiante de mim quando passei a ler coisas com o coração. A partir daí, ultrapassei os limites e espantei os mais velhos que me chamavam de “a rapa do tacho”. A janela da sala de onde morava raramente ficava aberta. Isso porque em seu parapeito se projetavam pilhas e pilhas de livros. Centenas de histórias fechadas que estavam ali simplesmente para enfeitar o ambiente. “Que coisa”, pensava eu com a cabeça de menino que sequer sabia juntar as palavras para descobrir seus mistérios. ...