Retalho e Tempestade

Voltei querendo ser tempestade, para rasgar os breus do meu desconhecido. A briga pelo que julgo ser meu prevalece em dias como este, mesmo eu não tendo nada. Mesmo a chuva tendo passado e a tarde cinzenta se prolongado com franjas tímidas de sol. Firmando a raridade dourada do que se diz valioso. Como se valor fosse medido por resplandescência. Mas, talvez, uma linguagem rebuscada feito esta para tratar de coisas simples tenha seu alicerce condenado pelo silêncio de uma tarde qualquer. Já não sou eu que escrevo. Gosto mesmo é das páginas. Elas possuem poesia ainda que estejam vazias. Confesso que foi por aqui, nestas linhas marginais, que me fiz como condutor de orações. Se passei para o caderno foi porque mantive firme as raízes no deserto que, mesmo tendo abundância de sol, nunca resplandecia. Sempre tinha a mesma cor ocre; um dourado fosco formando o horizonte de quem sonhava com montes verdejantes.

Encontrei na capa de um caderno verde uma razão para seguir adiante. Não falava mais de tempestades quando terminei a última página. Depois, parti as histórias em pedaços. Voltei para recomeçar uma narrativa diferenciada. Buscando respostas nos detalhes. Encontrei cor e movimento, e também outros sentimentos complexos que nunca senti. Foi um momento de descoberta. A metáfora do jardim já não funcionava na escuridão em que me encontrava. Não via diferença nas flores, que dirá nas folhas. Caminhei por muito tempo nas campinas que sempre sonhei, conquanto meus pés tenham se acostumado com a sensação. Esqueci-me dos desertos e das tempestades; deixei de ser centelha no infinito para ser o que pude em um mínimo espaço. Foi quando comecei a sentir saudade sem saber do quê.

A vida foi brincando comigo. E é por isso que agora escrevo do mesmo lugar de onde escrevia tempos atrás com outros olhos. Não é por eu simplesmente ter envelhecido, mas pelo cortejo que os dias foram se esvaindo. Fendas da verdade: o que era verdadeiro sobreviveu. De nada adiantaria voltar para terminar depois. Se é para ser, será pelo enredo que se segue. Palavras e pontos quaisquer, formando modelos de verdades abstratas, fórmulas paliativas de lidar com a realidade, futuro prefigurado que se esconde por debaixo dos panos. No fim, tudo é retalho. Até a tempestade que quis ser um dia... Um furo no cobertor que só serveria para incomodar.

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