Memorial da Janela
Janela. Foi o primeiro “livro” que li. Da minha casa, a paisagem era outra. A janela de madeira, cuja função seria a de abrir suas abas para os dois lados, representando o livro fantástico dos meus sonhos, mantinha um segredo que só eu conseguia decifrar. Foi assim que aprendi a ler, ao primeiro momento, a paisagem que tinha ao meu alcance.
Fui uma criança solitária. O último filho. O último neto. O último de muitas coisas. Contudo, aprendi a colocar a linha de chegada um passo adiante de mim quando passei a ler coisas com o coração. A partir daí, ultrapassei os limites e espantei os mais velhos que me chamavam de “a rapa do tacho”.
A janela da sala de onde morava raramente ficava aberta. Isso porque em seu parapeito se projetavam pilhas e pilhas de livros. Centenas de histórias fechadas que estavam ali simplesmente para enfeitar o ambiente. “Que coisa”, pensava eu com a cabeça de menino que sequer sabia juntar as palavras para descobrir seus mistérios.
Via que não podia deixar as coisas assim. Eram livros de todos os tipos, de todas as cores e de todos os tamanhos. Ainda que eu não soubesse ler palavras, saberia apreciar um desenho bem feito. Comecei minha primeira aventura escalando o sofá até o encosto para apanhar sempre o último título da pilha. Folheava-o e não encontrava nenhuma gravura para me contentar. Uma lástima para mim que possuía o mapa do tesouro e não sabia interpretá-lo.
Vó Zulmira percebeu o que se passava comigo. Foi quando me convidou para ir ao seu quarto. Sentei-me ao seu lado na cama e a ouvi falar coisas preciosas que talvez nenhum outro neto tenha ouvido de sua boca. Disse-me, claramente, que, quando eu me tornasse adulto, todos os seus livros seriam meus. “Sério?”, perguntei-lhe com surpresa nos olhos. E ela confirmou. Ainda completou abrindo a gaveta da cômoda e, retirando de lá uma obra:
— Este é um livro sobre a vida de São Francisco de Assis. Um dos mais especiais que possuo. Gostaria que se lembrasse dele quando ficasse mais velho. Por ora, continue brincando. Ainda não é tempo dessas leituras.
Peguei o livro e pude ver a imagem do santo na capa. Uma gravura! Essa eu podia entender. Muitos animais a sua volta, uma natureza enlaçada pelo céu claro com nuvens graciosas. “Que maravilha, vó!”. E, assim, foram-se as inquietações. Não demorei muito para começar a entender as primeiras palavras.
— Olha só, eu sei ler: O-V-O, e também tem: E-L-E-F-A-N-T-E. Uma é fácil e a outra é difícil.
Aprendi também a assinar meu nome e o nome de minha vó. Achava fantástico o dela começar com a última letra do alfabeto. E ela completava:
— “Z” de zangão e também de Zorro.
— Zangão eu sei que é o marido da abelha, vó — falava-lhe contente —, mas, Zorro?! O que é Zorro?
— É um super-herói, Filipe! — E lá vinha ela com a fita do Zorro alugada para que eu pudesse assistir ao filme. Fazia bolinhos de chuva e leite com nescau para eu tomar enquanto me surpreendia com uma autêntica aventura.
Nesse contexto, aprendi a ler e a escrever. Passei a desvendar lentamente e com muita dificuldade, um por um, os livros da janela. Comecei fazendo isso com o “Sobradinho dos Pardais”. O desespero de dona Pardoca em ter seus filhos emparedados no telhado por um homem desavisado de que lá havia um ninho me marcou profundamente. É claro que o livro possuía um final feliz. Era feito para criança como eu àquela época. Mas, por um instante, pensei nas possibilidades e tudo se misturou em minha mente.
Foi então que percebi que não podia emparedar os meus sonhos. Eu possuía tantos: fosse uma bicicleta ou um novo brinquedo; fosse um passeio ou uma viagem em família. A infância faz tudo ser grandioso. Além disso, sabia que todas as janelas mostravam uma paisagem. A minha, por exemplo, mostrou-me o mundo da literatura.
Certa noite, ouvi um barulho muito alto. Os adultos começaram a conversar nos corredores da casa. Passos para lá e para cá cortavam o meu sono pesado de criança que havia brincado o dia todo. Pela manhã, fui acordado por meu irmão que me disse:
— Vó Zulmira caiu ontem de madrugada. Quebrou a perna. Teve de ser levada para Petrópolis.
Eu tinha sete anos quando li pela primeira vez o sentimento da culpa. Culpa por não ter levantado à noite para ver o que estava acontecendo. Culpa por não ter visto minha vó indo para Petrópolis. Culpa por não ter falado alguma coisa carinhosa a ela no dia anterior. Era aquela a paisagem a minha frente. Dura de ser lida e, todavia, tão real.
Algum tempo depois, fui acordado de novo. Dessa vez, por minha mãe.
— Vó Zulmira morreu! — Foi o que conseguiu me dizer. Não havia mais nada.
A casa, de repente, ficou abarrotada de pessoas. Parentes de todos os lugares começaram a chegar. Uma confusão sem tamanho. Vozes vindas de todos os cômodos compunham o cenário de uma criança que ficava fora do campo de visão da maioria.
Quando vi o caixão, despertei-me para os finais. Aprendi que as histórias terminam. E sem que tivesse lido uma grande obra sequer, acabava de ler àquele instante a obra de uma existência. Marcada pelo amor e pelo desejo de passar o melhor a quem ficasse um pouco mais. Era um adeus e também uma leitura da vida.
Anos depois, peguei o livro que me foi dado e me atentei a uma frase nele presente: “A vida é um ponto entre dois infinitos”. Daquele dia em diante, nunca mais abandonei a literatura. Eu estava apenas começando e já tinha experimentado o peso da finitude. Por melhor que fosse o livro, ele acabaria. Chegaria a hora de pôr o ponto final que carregaria o peso de todos os finais.
Só consegui entender isso porque, muito antes de começar a ler palavras de gênios, li a vida por uma janela que não se abria, pelo relógio que não parava e pelos conselhos de quem havia partido antes de mim. E tudo isso não passava de um entre os muitos pontos finais que eu viria a encarar.
Fui uma criança solitária. O último filho. O último neto. O último de muitas coisas. Contudo, aprendi a colocar a linha de chegada um passo adiante de mim quando passei a ler coisas com o coração. A partir daí, ultrapassei os limites e espantei os mais velhos que me chamavam de “a rapa do tacho”.
A janela da sala de onde morava raramente ficava aberta. Isso porque em seu parapeito se projetavam pilhas e pilhas de livros. Centenas de histórias fechadas que estavam ali simplesmente para enfeitar o ambiente. “Que coisa”, pensava eu com a cabeça de menino que sequer sabia juntar as palavras para descobrir seus mistérios.
Via que não podia deixar as coisas assim. Eram livros de todos os tipos, de todas as cores e de todos os tamanhos. Ainda que eu não soubesse ler palavras, saberia apreciar um desenho bem feito. Comecei minha primeira aventura escalando o sofá até o encosto para apanhar sempre o último título da pilha. Folheava-o e não encontrava nenhuma gravura para me contentar. Uma lástima para mim que possuía o mapa do tesouro e não sabia interpretá-lo.
Vó Zulmira percebeu o que se passava comigo. Foi quando me convidou para ir ao seu quarto. Sentei-me ao seu lado na cama e a ouvi falar coisas preciosas que talvez nenhum outro neto tenha ouvido de sua boca. Disse-me, claramente, que, quando eu me tornasse adulto, todos os seus livros seriam meus. “Sério?”, perguntei-lhe com surpresa nos olhos. E ela confirmou. Ainda completou abrindo a gaveta da cômoda e, retirando de lá uma obra:
— Este é um livro sobre a vida de São Francisco de Assis. Um dos mais especiais que possuo. Gostaria que se lembrasse dele quando ficasse mais velho. Por ora, continue brincando. Ainda não é tempo dessas leituras.
Peguei o livro e pude ver a imagem do santo na capa. Uma gravura! Essa eu podia entender. Muitos animais a sua volta, uma natureza enlaçada pelo céu claro com nuvens graciosas. “Que maravilha, vó!”. E, assim, foram-se as inquietações. Não demorei muito para começar a entender as primeiras palavras.
— Olha só, eu sei ler: O-V-O, e também tem: E-L-E-F-A-N-T-E. Uma é fácil e a outra é difícil.
Aprendi também a assinar meu nome e o nome de minha vó. Achava fantástico o dela começar com a última letra do alfabeto. E ela completava:
— “Z” de zangão e também de Zorro.
— Zangão eu sei que é o marido da abelha, vó — falava-lhe contente —, mas, Zorro?! O que é Zorro?
— É um super-herói, Filipe! — E lá vinha ela com a fita do Zorro alugada para que eu pudesse assistir ao filme. Fazia bolinhos de chuva e leite com nescau para eu tomar enquanto me surpreendia com uma autêntica aventura.
Nesse contexto, aprendi a ler e a escrever. Passei a desvendar lentamente e com muita dificuldade, um por um, os livros da janela. Comecei fazendo isso com o “Sobradinho dos Pardais”. O desespero de dona Pardoca em ter seus filhos emparedados no telhado por um homem desavisado de que lá havia um ninho me marcou profundamente. É claro que o livro possuía um final feliz. Era feito para criança como eu àquela época. Mas, por um instante, pensei nas possibilidades e tudo se misturou em minha mente.
Foi então que percebi que não podia emparedar os meus sonhos. Eu possuía tantos: fosse uma bicicleta ou um novo brinquedo; fosse um passeio ou uma viagem em família. A infância faz tudo ser grandioso. Além disso, sabia que todas as janelas mostravam uma paisagem. A minha, por exemplo, mostrou-me o mundo da literatura.
Certa noite, ouvi um barulho muito alto. Os adultos começaram a conversar nos corredores da casa. Passos para lá e para cá cortavam o meu sono pesado de criança que havia brincado o dia todo. Pela manhã, fui acordado por meu irmão que me disse:
— Vó Zulmira caiu ontem de madrugada. Quebrou a perna. Teve de ser levada para Petrópolis.
Eu tinha sete anos quando li pela primeira vez o sentimento da culpa. Culpa por não ter levantado à noite para ver o que estava acontecendo. Culpa por não ter visto minha vó indo para Petrópolis. Culpa por não ter falado alguma coisa carinhosa a ela no dia anterior. Era aquela a paisagem a minha frente. Dura de ser lida e, todavia, tão real.
Algum tempo depois, fui acordado de novo. Dessa vez, por minha mãe.
— Vó Zulmira morreu! — Foi o que conseguiu me dizer. Não havia mais nada.
A casa, de repente, ficou abarrotada de pessoas. Parentes de todos os lugares começaram a chegar. Uma confusão sem tamanho. Vozes vindas de todos os cômodos compunham o cenário de uma criança que ficava fora do campo de visão da maioria.
Quando vi o caixão, despertei-me para os finais. Aprendi que as histórias terminam. E sem que tivesse lido uma grande obra sequer, acabava de ler àquele instante a obra de uma existência. Marcada pelo amor e pelo desejo de passar o melhor a quem ficasse um pouco mais. Era um adeus e também uma leitura da vida.
Anos depois, peguei o livro que me foi dado e me atentei a uma frase nele presente: “A vida é um ponto entre dois infinitos”. Daquele dia em diante, nunca mais abandonei a literatura. Eu estava apenas começando e já tinha experimentado o peso da finitude. Por melhor que fosse o livro, ele acabaria. Chegaria a hora de pôr o ponto final que carregaria o peso de todos os finais.
Só consegui entender isso porque, muito antes de começar a ler palavras de gênios, li a vida por uma janela que não se abria, pelo relógio que não parava e pelos conselhos de quem havia partido antes de mim. E tudo isso não passava de um entre os muitos pontos finais que eu viria a encarar.
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