Tempestades Perdidas

Sei que estou escrevendo pouco por aqui. Tenho gostado de sentir a caneta no papel. Bater teclas ficou menos intenso. Mas insisto. Aqui foi que me fiz. Existe um ponto que separa duas vidas. Algo que marcou para sempre as pegadas na areia e distinguiu aquilo que foi escrito antes daquilo que se escreveu depois. O tempo pode carregar gracejos quando se tem olhos de criança. A nostalgia é apenas uma pena que se desprendeu da ave, passando a voar pelo vento e não pelo movimento de quem realmente voa.
Ainda tenho saudade das aves pela manhã. Gosto de escrever sobre elas, como forma de marejar a mente. Não os olhos, mas a mente. Os olhos já marejaram demais. Desaguaram quando acertei os ponteiros e depois não correram um rio sequer. A mente é que brinca de ter vista para o passado. Costuma chorar por manhãs silenciosas. Sempre querendo mais um momento de oração e intimidade com o divino. Divino que ela própria desconhece.
São as entrelinhas querendo destaque. É mais um problema de orgulho do que qualquer outra coisa. Se fosse diferente, sentiria saudade também de outros tempos. Contudo, isso não acontece. É especificamente aquele. A mesma história de sempre. Tive de passar por isso. Não teve jeito. E agora ouço músicas que me remetem àquilo que não vivi.
Mais um fragmento para a coleção de cacos abandonados. Uma chuva atrás da outra faz com que muitas sejam esquecidas. Foi exatamente isso que aconteceu em um tempo de tormenta. Existem tempestades perdidas. Jamais poderei recuperá-las porque agora vivo sob o sol. O que faço é apenas um relato de algo que sinto. Talvez só eu assim o sinta. É complexo demais para se dividir. Ou simples demais para existir. Por isso se perdeu. Como tantas outras coisas também se perderam nessa correnteza de viver.

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