Paisagem de Conchas (OK)

Quando nos encontraremos de novo? Quero rever as histórias daquelas páginas jogadas, desenhar as linhas do tapete, abrir as cortinas, ouvir as mesmas músicas e amanhecer por aí, assim, neste céu que invadiu as ideias para ter voz, cantou palavras e se foi nos infinitos versos. 

Nome para quê? Que noite é essa que nos apresentou dos fantasmas? Corri nos trilhos do trem, tentando ser mais rápido que a locomotiva, simplesmente para dizer: estou fazendo algo de bom. Para quem, eu não sei. O trem virou a curva, eu escapei pela tangente, compus outro cenário, afastei-me dos trilhos e, então, tive de abrir meu próprio caminho. Se desejei um destino, ele se perdeu. Mas o esforço não foi em vão. Vi a selvageria das amarras nos espaços esquecidos e aprendi a perdoar. 

Nesta goteira de sílabas pingadas, escrevi a epopeia das lágrimas até encher o mar. Voltei-me ao oceano com medo das ondas. Todo texto é tão igual. Toda pergunta tem sempre a mesma resposta. E o que eu posso fazer? Contentar-me nas mesmices, nas banalidades, para recompor as rimas do coração. Daí, surgem os olhos de cristais, os espelhos de chuva, o tempo de recomeçar, seguir ou ficar; e o que era mesmice deixa de ser, fazendo ecos nos corredores para assombrar as novas moradas.

Virei a página. Um ponto, algumas vírgulas, e refiz o enredo. Eu mesmo. Transformei-me em vida dentro de mim para perder o medo dos grandes espaços, das vozes envolventes, e mergulhei nas noites dos fantasmas para dançar com eles. Viraram sentimentos. E a paz não seria um sentimento? Então, um fantasma de capa azul, com nuvens aos pés, correnteza na mente, que queria se empoçar nos pequenos espaços. Coitada da ilusão. Buscou tanto a eternidade que se virou do avesso e encarou a realidade. Porque iludir-se é para sempre na vida de quem faz arte com as mãos. Mexem-se de cá e de lá, rufam-se os tambores, expõem-se as ideias, até tudo virar saudade.

Eu tenho muita saudade de outros tempos, de outras ruas onde passava, daquele que habitava em mim, de manhãs com estrelas, de árvores floridas, pássaros na janela, café na mesa, poças d´água no quintal e canteiros por lá e por cá. É o tempo pregando retratos nas paredes às quais me prendi. E, apesar das marteladas, ele continua passando. O que aprender com isso? O que fazer no chão de tacos riscados, envelhecidos, quando todos os sapatos se gastaram? Respostas iguais para perguntas iguais. Concha do mar como tantas que já cumpriram o seu papel. Agora enfeitam os cantos com memórias das profundezas. Assim, surgem as histórias feitas das memórias de conchas, ninhos, sementes, cascas, cascalhos, pedrinhas e poeira.

Eu só junto os cacos, colo os papéis, costuro os rasgados, refaço os traçados e me justifico por viver. Ainda bem que as palavras podem ir além do que sou ou faço. Assim, escancaram as janelas para revelar diferentes paisagens todos os dias. Ainda que todos os dias sejam sempre iguais.

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