Reinterpretação de Copos (OK)

Vida nova, não é? Feita de reencontros, mais uma vez. Peça perdida do jogo, inconsistência da viagem que se prologou por mais tempo. E aqui vamos colorindo os jardins, delineando os horizontes, abrindo as janelas da alma, repondo os interstícios, esfarelando as reminiscências, brincando de vírgulas, sendo criança na armadura do tempo. É hora de voltar às manhãs na varanda, com rede de descansar, sombra dos pilares, verde de esperança esperada por tantas flores replantadas. Olhei a rua, vi carros e carroças, um caixa de lápis espalhada no chão e papéis, muitos papéis. Voltei à cidade das luzes, senti-me pertencente, mas com vontade de chorar pelo tempo que se tornou sujeito e caminhou sozinho na outra calçada. Cadê os outros tempos? Por que justo aquele seguiu outras pegadas? É o avesso de uma história intrincada em pequenas ofertas de muitas viagens. Agora, justo agora, eu trabalho por aqui, palavreando os sertões até virarem mares de poesia. Porque poesia mesmo é uma hora vaga entre dois compromissos, quando os pensamentos vão para dentro limpar a casa, bater os tapetes,  entrelaçar os sonhos de muitos anos e jogar cartas para viverem um pouco de si. Experimentam das palavras em copos, xícaras, taças, bacias, odres, cuias e folhas de taioba. Misturaram tudo, abriram a casa, saíram correndo e sorrindo pelas vielas dos sentimentos derramados. 

Seria esta a mente de um artista que vê a incompletude de um círculo? Há sempre uma rasura, algo que ficou para trás, uma semente não plantada, uma garça fora do bando, um trejeito sem jeito. Por isso vivo de desistir do adeus às histórias. Trata-se de uma reinterpretação de copos, embora todos bebam alguma coisa. Há muito não me reinterpretava como peça importante do jogo. Somente agora me vejo como tal. E vão-se as partidas, com gritos no escuro de uma plateia de pensamentos que fugiram de casa, lançando-me flores arrancadas do jardim que custei a plantar. Mais uma vez, sertão. No meu copo, palavras. Há estações em que as flores crescem com mais alegria. Por isso as rego com versos imprecisos, sem começo ou fim, mas com um caminho. Se tem algo a ser contemplado, que sejam os detalhes, as memórias, as palavras jogadas, as cores desesperadas e os ensaios não apresentados. Há muita coisa por trás das cortinas, muitos quadros virados num sótão esquecido, livros fechados, caixas empilhadas. Quero sol pelos cantos, rompendo os ares em luz de um dia após o outro. 

Encontrei-me por aqui. E vou além. Fui eu quem ensinou os pensamentos a voltarem. E posso mostrar-lhes o caminho de outras praias infinitas. Para serem grãos e provarem do oceano. E quando se cansarem da infinitude do mar, que sejam capazes de retornar para replantarem um novo jardim. Assim, fiz de mim uma porta aberta de despedidas, mas, mais que isso, o abraço chorado de muitas chegadas. Sou a hora marcada de uma pronúncia incorreta, onde trocam o "i" pelo "e", o "e" pelo "i". E quando perguntam por mim, sou a descontextualização da palavra. Contudo, ainda assim, uma poesia avulsa que deu corda no vento para voar e voltar quando bem entendesse.

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