Um pedaço do infinito que se partiu

Querer o fim da chuva. O sol depois das seis. Os dias mais quentes. O coração aconchegado nos fins de tardes existenciais. A lua virou-se para a estrada, deixou a noite como espetáculo. O palco montado, pessoas chegando, o jeito de ser, vozes entrelaçadas pelas redondezas da imaginação; eram passos e mais passos, enchendo o teatro. Queriam ver a tragédia. Queriam ver o outro sofrer, o outro cair, o outro se corromper... Mas não viram. Olharam-se no espelho. Eram máscaras de vaidades. As terceiras pessoas. De cujas vírgulas roubei.  Na verdade, roubei tudo. As vírgulas e as pessoas. Juntei tudo no baú das lembranças, até se formarem aos moldes de memórias vazias. O que fiz ontem? Por onde andei? Com quem estive? Por que me esquivei? Levaram-me pelos idos horizontes, pelas curvas de todas as dúvidas. Duvidei de mim mesmo, do meu jeito, da minha aparência, da minha voz, do meu estilo, da minha capacidade, do meu existir. Duvidei que fosse gente, que fosse capaz. Duvidei que um dia não duvidaria. E cá estou, escrevendo sobre a dúvida sem tê-la nos bolsos, sem acorrentá-la ao pescoço, sem ao menos senti-la de longe, observando-me de olhar atravessado, atravessando o destino pelos dias que já foram iguais. Hoje, tudo é diferente. É vez de ser e estar, de existir e sonhar. E acreditar nos contextos, seja pelo mar seja pelo céu, juntando em pares os extremos, os meios e o que sobra. Tudo para ornamentar as ideias de explicações que façam sentido. Mas o sentido da arte de viver não se faz em pares, se faz em montes. Pela manhã já fiz um monte de coisas. E o melhor: posso me lembrar delas. Mais tarde, a tarde que se estende. Vira infinito. Depois se desfaz, enveredando-se pelos cantos, os pássaros da noite, e contemplamos os quadros na parede, as histórias das velhas senhoras, das Judites às Teresinhas, das Marias às Dalvas, que um dia sonharam pelas curvas da vida. Sinto saudades de me sentir criança para chamar pela avó. Dizendo que havia me machucado, sangrado o dedo, perdido a unha. Zulmira, dona Zulmira. Tanto tempo. Se visse hoje onde estou. O que faço para ser alguém, creio que ficaria orgulhosa. Ela que havia deixado os livros para mim. Que havia me falado sobre São Francisco de Assis. Das orações entre os dedos. Dos tempos de ausência. Da vida que passa e não volta. E passa rápido. Quando se vê, já é noite. Já é hora de fechar as janelas e apagar as luzes. Partir. Para alhures, na casa dos sonhos, dos encantos, onde nada é banal, onde todo dia é dia de ser o que é, de ter o que há, de unir o que se quebrou. E vamos, assim, sem rumo, sem norte, cavoucando os sentidos, buscando as significações, sem nada encontrar. Porque o significado do nada é tudo quando não se compara. E tudo é história a ser contada, interpretação de existir, desdobrando-se nas entrelinhas para ser recontada a quem desejar.

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