Memórias sob às Chuvas de Verão
Nesses dias chuvosos de verão, pude recordar-me de Vó Zulmira, cuja presença cuidadosa se estendia pelas tardes sem fim. Minha vaga lembrança da tenra idade infantil se desfaz no precipício do esquecimento, mas, ainda assim, consigo refletir sua imagem nos meus pensamentos junto à sua voz, pedindo-me para declamar o poema do pássaro na laranjeira.
Corria pelo corredor da casa, com minhas miudezas espalhadas pelo cão. Ao passar em frente ao quarto com a porta entreaberta, via aquela senhora, marcada pelo tempo, sentada perto da cabeceira da cama com seu rosário em mãos, sussurrando as orações que vinham do fundo de sua alma. Quantas coisas devia dizer a Deus, beirando os noventa anos, em decorrência de sua plena experiência terrena. Ao olhar para mim, sorria levemente e continuava a rezar de cabeça baixa.
Foram necessários muitos anos para que eu entendesse o que ela queria com aquele ápice de silêncio. A vela acesa no criado mudo e a imagem de Santo Antônio compõem o cenário marcado em minhas reminiscências. A chuva estrondosa que caia na área externa não nos atingia, embora os trovões me assustassem. Ao perceber minha apreensão, vó Zulmira falava: "Não se preocupe, pois Deus está lavando o mundo!".
As estações não mudaram desde aquela época: verão continua sendo verão; assim como os demais ciclos desempenham seu papel diante da natureza. Mesmo que a fase de minha avó tenha se concluído há muito tempo, ela cumpriu seu papel passando sua vivência para mim nos curtos anos imperceptíveis de uma criança, pois sabia do poder que a obervação exerceria no processo de formação da minha mentalidade.
Em seguida, vinha o cheiro do café com leite e do pão esquentado no fogão. "Filipe, venha comer!" assim me chamava, secando a vasilha molhada na pia. A simplicidade da ocasião reluzia o primor afetivo do bem-querer pelo neto, totalmente dependente de seus cuidados. Hoje só me resta a saudade daquelas tardes que se fazem presentes no acervo memorável de acontecimentos pessoais, os quais ninguém guarda consigo, apenas eu, numa visão opaca dos momentos há muito transmutados pela severidade do tempo.
Corria pelo corredor da casa, com minhas miudezas espalhadas pelo cão. Ao passar em frente ao quarto com a porta entreaberta, via aquela senhora, marcada pelo tempo, sentada perto da cabeceira da cama com seu rosário em mãos, sussurrando as orações que vinham do fundo de sua alma. Quantas coisas devia dizer a Deus, beirando os noventa anos, em decorrência de sua plena experiência terrena. Ao olhar para mim, sorria levemente e continuava a rezar de cabeça baixa.
Foram necessários muitos anos para que eu entendesse o que ela queria com aquele ápice de silêncio. A vela acesa no criado mudo e a imagem de Santo Antônio compõem o cenário marcado em minhas reminiscências. A chuva estrondosa que caia na área externa não nos atingia, embora os trovões me assustassem. Ao perceber minha apreensão, vó Zulmira falava: "Não se preocupe, pois Deus está lavando o mundo!".
As estações não mudaram desde aquela época: verão continua sendo verão; assim como os demais ciclos desempenham seu papel diante da natureza. Mesmo que a fase de minha avó tenha se concluído há muito tempo, ela cumpriu seu papel passando sua vivência para mim nos curtos anos imperceptíveis de uma criança, pois sabia do poder que a obervação exerceria no processo de formação da minha mentalidade.
Em seguida, vinha o cheiro do café com leite e do pão esquentado no fogão. "Filipe, venha comer!" assim me chamava, secando a vasilha molhada na pia. A simplicidade da ocasião reluzia o primor afetivo do bem-querer pelo neto, totalmente dependente de seus cuidados. Hoje só me resta a saudade daquelas tardes que se fazem presentes no acervo memorável de acontecimentos pessoais, os quais ninguém guarda consigo, apenas eu, numa visão opaca dos momentos há muito transmutados pela severidade do tempo.
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