Os Livros que Falam Comigo

Vejam só que curioso: passaram-se os dias, as semanas... E eu vivia com meu escritor morto dentro de mim. Algo um tanto quanto estranho, pois ainda morava com os livros que clamavam por suas leituras. Era como se o leitor chorasse pelo autor falecido. Poesia? Nenhuma... Tudo corrido, tudo normal, tudo sabático.

Mas nesse tempo algo aconteceu. Os livros permaneceram ali, na mesa, empilhados aos montes esperando uma decisão minha. Apenas com meus olhos virados para suas capas, sem abri-las, eles sabiam que eu exista, assim como também sabia deles, mas sem ter nada para oferecê-los. Nem sequer o tempo que usufruía despreocupado.

Eles, por sua vez, tinham o mundo a me oferecer. E eu negava. E negava a mim mesmo também: o leitor assíduo em sua hibernação. E onde estava o escritor? Morto! A morte do cronista, como já havia mencionado, ocorrida de forma tão sutil e silenciosa exprime a ideia de que as Parcas, ao cortarem o fio, devam utilizar uma tesoura de ouro. E lá se vai outra vez... Na correnteza sem fim.

Ontem, caminhando pelas ruas da cidade, ouvi os sinos da catedral. Entrei na igreja e me sentei em um dos últimos bancos. Faltava poucos minutos para começar a Missa. Distraído em meus pensamentos e orações silenciosas, senti alguém me abordar. Olhei para o lado e vi uma senhora sorridente. Retribuí o sorriso e então ela me questionou: "Jovem, você poderia entrar com a Bíblia erguida nos braços daqui a pouco?".

Eu, sem saber o porquê dela ter me escolhido em uma catedral lotada, apenas concordei calmamente — o que não refletia meus sentimentos internos de nervosismo. "Depois do Glória, você entra sozinho! Erga-a bem alto para que todos  possam vê-la!", disse ela. "Tudo bem, vamos lá." Assim iniciei uma caminhada lenta e demorada, onde os olhares direcionavam-se para mim. Cheguei no altar vi o padre fazendo sinal para eu me virar. Virei-me. Todos aplaudiram o Livro dos Livros.

Ao fim da Missa, voltei para casa. Vi os exemplares parados na estante. Será que eles sabiam o que eu havia feito? Com certeza não, pois eles só sabem de suas estórias e narrativas. É isso que eles tem a oferecer. E então, mais uma vez o leitor despertava de seu sono, seguido pelo autor que renascia das cinzas.

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