Um Talvez e Uma Ave (OK)
O amanhã é sempre uma fonte de inesgotável "talvez". Mais à noite, caminharei por aí vendo as entrelinhas do céu quando puder e quiser. Por ora, fico por aqui, fazendo de mim um ocaso de ideias. Páginas não escritas. Outra hora, depois, adiante, vai-se sem rumo o rio do ser pensante que se envereda para outras histórias, de capas desconhecidas e cores estranhas, de traços fortes e vozes macias que dão direções. Direção de correnteza não se dá. Hora marcada é apenas um movimento de relógio. A gente erra por falar demais, ou por não dizer nada. Mas erra. E errando, vamos mergulhando vendo margens de tantas árvores e pedras jogadas que ficaram para sempre esquecidas nas beiras por onde o rio passa. Esperar que a água esbarre de tanto correr é tortura, mas também amor das pedras, das árvores e dos bichos que não voam. Apenas os pássaros podem ir ao encontro do rio, no centro de sua correnteza, na pedra esquecida, aquela que ficou para fora das águas, para provarem do majestoso momento onde vivem a preciosidade da sutileza. Na tormenta de águas furiosas, nuvens de fumaça que se estende do penhasco, grotas e sumidouros, tremores e o silencioso eco da confusão caudalosa, tambores de outras eras, o ponto em branco na pedra seca ao centro da paisagem. Aquela ave, que pouco avistei e julguei ser uma miragem, uma fantasia, estava ali. Moveu o bico para trás e me viu, bem longe na outra margem tão comum. Com os pés cravados na lama. Não mergulhei naquele dia. O momento era sagrado demais. E vivi à margem de um sonho.
Pouco depois, estava de volta aos papéis. Nunca pude entender o que de fato acontecera. Os "amanhãs" vieram, viraram páginas, provavam do passado e foram se distanciando pelas curvas da vida. E assim, por onde fui, plantei a semente de um talvez. Agora que florescia quando bem entendesse; eu mesmo não me importava. Foi quando parei com a mania de olhar a todo instante as horas ou de ver quantas páginas faltavam para acabar o livro. Tudo era um porvir. Uma constante de possibilidades que os relógios pararam de marcar. Aprendi que em uma única página podia caber infinitas histórias e que todos os rios corriam em mim; por isso o que havia na pedra àquele dia não era uma ave, mas um sentimento. Uma paz, entre tantas pazes que corriam loucamente para chegar sabe-se lá onde.
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