Mistério de Dezembro (OK)

Foi-se mais um. É dezembro, de novo. Outro, mais claro que os jogados no fundo do baú. A caixa secreta foi aberta por diferentes personalidades e em diferentes cenários. O de agora, por exemplo, é calmo, simples, enferrujado, quase realizado, profundamente tentador, e outras tantas coisas iguais que se enveredam por aí. Dezembro é o desfecho de estar, de se entender como gente que se perde de tanto se encontrar; mês do meu aniversário, como outros aniversários já passados com abraços e "desabraços", com sonhos de outras vidas sonhado por outras pessoas. Eu, escrevendo cartas para ninguém, vivendo um personagem diferente a cada dia, depois de muitos e muitos anos, encontrei-me nas entrelinhas de uma história e refiz a narrativa. Trouxe-me o protagonista, sintetizando os fatos e revendo os anos já passados. Não podia fazer mais nada além de pontilhar vírgulas no lugar dos pontos. Continuei sonhando onde muitos pararam. Não me importei com os números que se enfureceram. O meu caso sempre foi com as palavras.

Daí, encarei os dezembros, os enfeites de natal, as luzes que me remetiam à fantasia tão perdida dentro da realidade que era mais uma sombra na parede. Por falar nisso, em paredes sou especialista. Pois conseguia ver o tempo passar por elas, sem relógios pregados ou quadros de lindas paisagens. O que me cativava mesmo era uma boa história. Passava horas lendo um livro para falar sobre ele depois. Fui esquecendo da minha própria história para dar lugar a outras. Não posso dizer que foi perda de tempo. Mas um desdobramento dele, que se fez maior para eu fazer de mim maior também. E o dezembro se estendeu, infinitamente, pelas paredes da sala. Na mesa de madeira, muitos livros. Na poltrona, alguém sentado em silêncio esperando o infinito perder-se na finitude das últimas páginas. Depois disso, muitos anos se passaram. E a vida continuou pregando peças, lavando os casacos, arrebentando os chinelos, escovando os cabelos, desenhando castelos em pequenos papéis. 

Dezembro mesmo tem um mistério que vai além do natal e do recomeço de um novo ano. Está para a lealdade de um cão que permanece aos pés do leitor enquanto ele termina a obra. Vivenciar outras realidades é possibilidade escancarada para quem vê nas palavras uma porta aberta, mas também nos dezembros; tem-se a mesma porta. A depender de quem olha, uma nova oportunidade para reinterpretar a realidade com luzes e músicas, mas não apenas isso. Existe a lealdade do cão, os passos assertivos, as entrelinhas da vivência, um capítulo consequente, uma história a ser lembrada e mais palavras depois do ponto final. Mistério, mesmo, só existe do lado de dentro e não no entorno.  

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