Meia Hora Depois (OK)

Posso escrever o infinito até esta sensação sumir. Ou escrever a sensação, algo do tipo, até virar infinito e eu me afundar nestas noites tão iguais. Destrinchei o mar para não precisar navegar perdido por aí, revisitando pretéritos imperfeitos como ia, cria, escrevia. Ainda vou por aí, crendo no aconchego das chegadas, escrevendo as sensações do mundo e flutuando em mares pontilhados de luzes. Viver é verbo; bem como amar; bem como apreciar o presente e desembrulhá-lo para se ter a surpresa. Ler um livro é ler a vida, e virar páginas e sempre ter surpresas nas mãos. Ouço a voz das palavras que saem de mim, principalmente quando pegam o ar para si e inflam meu peito para saírem depressa, em uma única respiração.  De uma só vez, sem vírgulas ou pontos. Apenas palavras. Sem sentido. Porque o mundo o perdeu logo que deixou de viver o agora, dado como um embrulho deixado à porta de um qualquer que jamais esperou por uma surpresa que fosse. Pois eu esperei por tantas, em cada curva, cada passo era um motivo para esperar e me desesperar. Assim pude me esquecer das sensações de viver. Vivi em outra época estando naquela de outras histórias, outras perspectivas, outros encantos enfeitiçados por vaidade de uma vida emplumada que sequer alçou voo. Esqueci-me de respirar, de sentir, de adormecer, coisas para sobreviver. Era eu o supérfluo das caixas deixadas à porta, das palavras escritas a lápis e apagadas, dos filmes assistidos e esquecidos, de uma dança sem ritmo e passos sem destino. Aí, tendo a pilha de livros escritos, coisas miúdas, secretas e ao mesmo tempo tão banais, reconheci-me no ponteiro maior, aquele dos minutos, que se movia de tempo em tempo, rapidamente em relação ao das horas. O relógio marcava oito e meia da noite e eu tinha até as nove para me redescobrir. Foi o que aconteceu. Abri um livro espelhado e li sobre um sentimento ao contrário. Com a mão esquerda, escrevi corretamente. Li assim: por mais uma vez, palavra por palavra nada significa sem aquele que as interpreta. E isso é único. Individual. Parte de quem se foi para quem se é e quem um dia será. Passado, presente e futuro: tudo a mesma coisa. A diferença mesmo está na escrita e na interpretação. Quando faltava cinco minutos para as nove, choveu e molhou todo o quarto. Que alegria! Às nove passei a ser o ponteiro menor, olhei velhas fotografias, li antigos poemas, reconheci-me nas inteirezas dos detalhes e nos textos dos cadernos. O caminho era, então, meia hora de turbulência num voo sem destino, porque o destino era o ponto de partida. Lugar onde o coração bate, o suor escorre, a lágrima seca e as mãos escrevem a sensação de viver o infinito.

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