Abismo dos Gracejos (OK)

Essa vida é, de fato, um gracejo que se lançou ao precipício. Caiu sorrindo, rodopiando, expandindo-se nas reminiscências de uma queda que quis ser voo. Liberdade seria, então, ir além do chão? Pois para o gracejo não houve chão de se cair, mas nuvens, em formas distintas, construindo salões azuis para amanhecer de novo. Mais céu para nossos pés. E assim, o riso se propaga no infinito de muitos e muitos problemas solucionados. Viver é flutuar nas bordas, nas beiradas das estradas perdidas e reencontradas. Não é à toa que toda queda traz um frio na barriga, um sentimento de perda, uma questão sem resposta, uma pedra no sapato, uma nova perspectiva de cair. Graça mesmo é quando nos lançamos e não caímos. De tanto ver precipícios, a pétala voou, o orvalho despencou, a letra se curvou e mensagem foi passada e novamente rasgada. Jogada ao longe para também cair. Mas não caiu. O céu a acolheu na infinidade de mensagens lançadas que se perderam. São sonhos descontextualizados. Poetas que não acreditaram nos abismos da vida. Afogaram-se nas poças transparentes e perderam os segredos das palavras. É difícil manter a arte como uma fera domada. Para tanto, respeitar a natureza das coisas, dos precipícios, das feras, do infinito e das letras que não completaram os papéis é essencial. E essencial mesmo é se reconhecer pertencente ao mistério de viver caindo nos precipícios e de se reencontrar toda vez em uma nova beirada para recomeçar a escrita.

Há sempre algo novo para se escrever. Seja nas beiras ou nos descampados, nos arredores ou no altos pastos de onde vieram estas sensações de desempenho estridente como uma roda d'água muito grande em um riacho tão pequeno. Ainda que a água não tenha força para fazê-la rodar na maestria de sua totalidade, ela não para. Ela preenche os espaços pouco a pouco, até que se movimenta timidamente para moer sabe-se lá o quê. Espero que seja a razão. Esfarelada depois de tanto viver em sonhos que não se jogaram ao infinito. Assim, fica fácil fazer o pó da razão voar pelo ambiente, por cima dos móveis e das ideias, pelas janelas e horizontes, pelos contornos  e totalidades. Mas sabemos, certamente, que muito mais que a razão é o sentimento inundado pela queda dos gracejos. Precipitar-se é sentir. E no fundo, os mistérios são mais vibrantes. No fundo mesmo, o que existe é liberdade, ainda que incompreendida.

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