Luzes de Estrelas Perdidas (OK)
Voltei-me às entranhas, revestindo-me de fragmentos, virando-me às avessas para recomer de um ponto qualquer. Existe um sentimento incompreendido por aqui. Veio pela manhã se instaurar nas raízes da minha horta, estendeu-se pelas horas da tarde, cantou uma música à noite e se recusa a dormir enquanto todos permanecem em silêncio. Eu nunca entendo nada dessas palavras. Vou apenas escrevendo faltas, preenchendo vazios impreenchíveis, arrancando os pedaços esquecidos de um sentimento partido. Complexo demais para um ser que se diz humano.
Esses textos me cansam. Quisera eu ser a simplicidade do amanhecer quando o via de longe, no alta da campina de minha infância. Nos dias em que havia avós para pedir a bênção diária. Por que fico estúpido perto da aleatoriedade? Vou me refazer com essas intervenções interpretativas para ler mais histórias. A luz está fraca por agora. Assim como eu também estou. Mas, ao me deitar, terei os sonhos infinitos de um jovem rapaz que já quis levar o mundo em suas costas. Hoje, vive de esvaziar os bolsos.
Não sei se poderei atravessar este rio na noite de hoje. Se mergulhar, certamente me farei de terceira margem. Para tanto, vou me atualizar. Tempo em mim, escorrendo nas reminiscências escancaradas, nas contingências negadas, nas horas de vazia, nas janelas fechadas, nas discussões infundadas e nas estrelas não vistas.
Todos possuem dores indizíveis. Eu sou apenas mais um na multidão vista de longe. Esperando a locomotiva na estação, percebo artimanhas das horas vagas. Ninguém conhece a solidão de ninguém. Qualquer um, quando sozinho, chora lágrimas secretas para dizer que a vida valeu a pena. Pode ser que, de fato, tenha valido. Ou tudo é mentira disfarçada de espaço para dançar a melodia que ecoa na mente. Uma hora nos perdemos, outra, encontramo-nos. Há palavras que rasgam os papéis por conta própria, fazendo da mensagem uma performance única encenada em uma curva da estrada.
Vou dar outros passos por aí, enquanto me esqueço de escrever as verdades. Sigo disfarçando os sentimentos reais. É hora de dormir para sonhar, de sonhar para viver, de viver para criar, de criar para deixar ir. Deixo-me além da compreensão. Quero mesmo sentir o que vier. Pois o coração que sente é o coração da verdade, e verdade mesmo é adormecer com as próprias palavras para acordar nos versos livres de um poema revolto. Revolto como o mar que já secou. Voltei-me a mim como quem quisesse matar a saudade de tempos passados. Não consegui. Assim, percebo que é hora de partir. E vou-me com as horas de uma noite que quase caiu no esquecimento. Sábias palavras que transformam tudo em infinito.
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