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Paisagem de Existir

Cortinas nas janelas. Ventania no coração. Algo balança de cá, ressoa de lá, naquela paisagem de tantos anos. Ressignificando o horizonte de caminhar. Caminhei por aquelas bandas, jogando com as nuvens que voavam acima, molhando os pés nos riachos, cantando com os pássaros algo novo para me animar. E não é que cheguei aqui... Por inúmeras estradas, debruçando-me neste parapeito e sentindo o vento soprar. E lá se vão as cortinas, escancarando tardes preciosas de sol, contrastadas no verde de montanhas e no azul de todos os infinitos. Quantos foram mesmo? Um punhado que cabia na palma da mão, jogado ao caminho para germinar. É bom que tudo tenha a oportunidade de virar jardim um dia.

Outro Momento

Estou doente já faz algum tempo. Essa doença de se olhar no espelho e não se reconhecer. De primeiro ouvia o canto dos pássaros e me emocionava com isso. Agora? Agora só desespero. Eu me perdi no meio do caminho. Achei que estava tudo bem. Senti a segurança dos iniciantes e me esqueci de manter o norte. Não deu outra. Dentro de poucos dias, os passos deixaram de fazer sentido. E tudo se desfez em nuvens de poeira. Quero falar um pouco de mim. Ou melhor, do que eu costumava a ser. Havia calma pelos cantos. A mente distinguia as cores da tarde. As palavras se ligavam umas as outras. Alguém cantava uma canção para eu ouvir. Eu gostava disso. Era algo que me emocionava. Também percebia mais o verde das plantas, o vento adentrando, a hora de tomar café e as páginas que virava. Parece que já faz muitos anos. Aqueles momentos de se ler em paz. Já perdi meus poderes de leitor e agora tento me reinventar voltando à casa dos sonhos perdidos, ao barco deixado na praia, à caixa secreta daquilo que...

Poeira na Janela

Estou queimando a pouca lenha que me resta. As coisas perderam um pouco do sentido. Nesses tempos de enxurrada, poças d'água não são vistas. Poderia eu pisar uma a uma, ondulando o avesso para me completar nas tremulações dos reflexos. Mas tudo se perdeu. As pedras, as calçadas, a rua que vira à esquerda, a chuva fina que molha o vidro da janela e que não ousa entrar. É isso. Falta-me ousadia de existir. Pensei que jamais voltaria ao espaço esquecido. Porque esquecer é cair para baixo dos panos. Algo que perdeu a utilidade por requerer muito tempo. Alguns míseros minutos de um dia que se estende como uma toalha pequena em uma mesa maior. São tantas as cadeiras vazias. As ausências que ocupam espaço. Os desconfortos encostados em almofadas coloridas. É uma pena que as coisas tenham caminhado por este rumo. Sem norte e sul, mas um emaranhado de ideias de passos marcados em terra molhada que apenas suja os sapatos. Daí a vergonha de voltar para casa e manchar os tapetes, arranhar o pi...

À Margem

 Quanto tempo não apareço nesta terceira margem de mim. Neste iluminado pôr do sol, de nuvens prateadas pela timidez de uma tempestade. Que vergonha é esta? Da nuvem ser nuvem, do sol ser sol, de mim ser um outro qualquer. Por que não posso ser eu mesmo? Ainda escrevo, mas perdi alguma coisa que não sei o que é. Queria sentir aquela sensação de estar por aí, andando sem rumo, tropeçando nas palavras para me moldar como ser que pensa e esfarela cada pensamento. Migalhas. Luzes de outras janelas. Eu me perdi, de fato. E está difícil me reencontrar. Esta fase está chegando ao fim. Outra estrada. Desafio de cem noites, saindo de mim para me tornar alguém que tem forma. Tantas coisas mudaram. Esta janela à minha esquerda mostra outra paisagem. Mais bonita, tanto que jamais imaginei que pudesse existir. As plantas crescem lentamente. Muito embora eu perceba cada nova folha exposta. Vivo de aprender, encontrando nos livros um apoio para caminhar. Uma armadilha de palavras para prender pás...