Outro Momento

Estou doente já faz algum tempo. Essa doença de se olhar no espelho e não se reconhecer. De primeiro ouvia o canto dos pássaros e me emocionava com isso. Agora? Agora só desespero. Eu me perdi no meio do caminho. Achei que estava tudo bem. Senti a segurança dos iniciantes e me esqueci de manter o norte. Não deu outra. Dentro de poucos dias, os passos deixaram de fazer sentido. E tudo se desfez em nuvens de poeira.

Quero falar um pouco de mim. Ou melhor, do que eu costumava a ser.

Havia calma pelos cantos. A mente distinguia as cores da tarde. As palavras se ligavam umas as outras. Alguém cantava uma canção para eu ouvir. Eu gostava disso. Era algo que me emocionava. Também percebia mais o verde das plantas, o vento adentrando, a hora de tomar café e as páginas que virava. Parece que já faz muitos anos. Aqueles momentos de se ler em paz. Já perdi meus poderes de leitor e agora tento me reinventar voltando à casa dos sonhos perdidos, ao barco deixado na praia, à caixa secreta daquilo que jamais disse.

Nesses tempos de engrenagens enferrujadas, quero me emocionar com as poucas frases que me restam. Tantos sonhos lançados depois, que só Deus sabe. Era a sensibilidade de uma pétala caindo no abismo. Algo para depois. Um depois que nunca veio. Prédios de descrença. Para que fazer tudo isso? Para me cansar à toa? Hoje em dia, muitas máquinas fazem o que costumava fazer. É uma perda de tempo existir nesta artificialidade.

Palavras que jamais serão lidas. Arte rasgada, remendada e posta no fundo da gaveta. Como me curar dessas informações? Será mesmo que há cura?

Fui tão exposto que agora quero me esconder. Mas minha mente já não é a mesma. Não me sinto confortável comigo exercendo míseras funções. Talvez tenha pensado demais. Vivi as inconstâncias de tempos renegados. A vida vai embora e eu não tenho visto ela  ir. Dias diferentes. Marcas de desejos que não têm forças para existir. Quero dormir sem ter hora para acordar. E continuar em outro momento.

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