O Fosso das Palavras Minguantes

Estava eu caminhando alegremente pela estrada dos textos sem fim, observando os detalhes do percurso com tanta admiração que meus olhos brilhavam. "Se eu continuar nesse passo, chegarei longe", presumia em cada curva contornada. E lá se revelavam os mistérios sentimentais encobertos pelas palavras ritmadas e organizadas em seus respectivos parágrafos.

Que dia lindo! Uma estrada plana a percorrer. Em meio às faustosas minúcias da escrita, me perdia em pensamentos e não me atentava mais aos desafios do formoso itinerário. Muito menos ao imenso fosso que se aproximava... No qual ainda tive a audácia de cair sorrindo. Nem jus à queda eu pude fazer, com um semblante de preocupação para marcar aquela fase que acabava de começar.

O fosso das palavras minguantes: lugar silencioso, vazio e apático. Vez ou outra, uma goteira fazia barulho; insuficiente para intentar alguma coisa concreta. Era ali que eu estava. A única coisa que podia ser feita, então, era sentar-me em suas encostas e esperar. Esperar por algo que eu não sabia o que era, mas que precisava acontecer para mudar aquela realidade.

Caíam as palavras irrelevantes lá de cima; quando se chocavam com o chão, partiam-se em pedaços diante de mim. Era a goteira fazendo seu trabalho com morosidade; tão minguada que nem uma estalagmite conseguia moldar. Permanecia ali, vendo aquele espetáculo empoeirado de frases que nunca se formularam. Até o dia em que um verbo se despencou lá de cima.

Naqueles segundos perpetuados, acompanhei sua queda do início ao fim. Ao atingir o solo, o mesmo não se partiu. Parou intacto diante dos meus olhos e eu pude lê-lo com perfeição: "postular". Trágico, se não fosse cômico. Eu não sabia o significado. A palavra não surtiria efeito perante a minha ignorância caso não lesse sua definição. Foi então que aconteceu aquilo que precisava acontecer: pedi com insistência para sair daquele fosso, supliquei veementemente, implorei...

A fantasia se faz pela imaginação. No fosso imaginário, somos autores da obra. Foi pela força de vontade que eu saí dele, idealizando a escada que me traria de volta ao caminho que corriam as palavras. Lá estava eu mais um vez, e comigo um novo verbo, de suma importância para expor com antecedência a angulação das curvas à frente. Assim, continuei o percurso, postulando inspiração às palavras que iam na mesma direção que eu.

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