Rosas pelo Caminho

Em sua roda de amigos, Estêvão sempre encontrava uma brecha para falar de sua vitória no concurso regional de poesias. O rapaz que expressava tamanha alegria em poder compartilhar essa conquista, afirmava que nem todas as peças haviam se encaixado para que tal feito se concretizasse. Quem não conhecia a história, questionava o porquê.

Acontece que Estêvão era moço de muita fé e devoto de Santa Teresinha do Menino Jesus. Dez dias antes de imprimir o original com quarenta páginas de seus melhores poemas, ele começou uma novena pedindo a graça de vencer o concurso. "Pelos méritos de tão querida santinha, concedei-me a graça que ardentemente vos peço, meu Jesus, se for conforme a vossa santíssima vontade", declamava convicto de que estava sendo ouvido.

Seus amigos não entendiam onde Estêvão queria chegar com essa fidúcia. Ele precisava explicar que o processo era tido como a Novena das Rosas, pois Santa Teresinha concedia uma bela rosa àqueles que receberiam a graça almejada após o termino dos nove dias de oração. No decimo dia, o moço saiu de casa esperançoso, levando consigo a obra para os correios. Avistara uma linda roseira no jardim de dona Geralda, repleta de magníficas rosas desabrochadas. "É uma pena ter tantas rosas naquele jardim e nenhuma ser para mim", suspirou.

Continuava o percurso até a mercearia de seu Damião, cujo canteiro em frente exibia lindas flores. "Nem sei se são rosas; e ainda que fossem, não são minhas..." Assim prosseguia em direção aos correiros, passando em frente a muitos jardins com lírios, camélias, violetas, margaridas, rosas... "Nenhuma para mim!", pondo-se a esperar na fila mais longa.

Envio realizado com sucesso. Estêvão voltara para casa pensando mais nas rosas do que no próprio concurso. "Ainda tenho chances de receber alguma". Dias depois seu telefone toca; de fato, seus poemas haviam vencido. Que felicidade! Mas cadê a rosa? Para um devoto, isso era frustrante. Contudo, naquele momento, sabendo que seus versos sairiam em um periódico, deixara a alegria ocupar seu lugar.

Foi naquela mesma roda de amigos, para quem contava o caso, que alguém lhe chamou a atenção: "Ora, meu caro Estêvão, como uma pessoa tão inteligente não consegue perceber tamanha demonstração? Santa Teresinha não lhe contemplou apenas com uma única rosa, mas com um verdadeiro jardim. Embelezou seu caminho com ressaltados roseirais carregados de flores e você ainda se pergunta onde está sua rosa?". De fato, o poeta foi incapaz de embolsar seu intento por este ângulo. Aspirava ardentemente uma regalo em mãos, enquanto sua vista contemplava as mais lindas flores de uma manhã primaveril, onde a brisa dançava com o bálsamo das rosas plantadas por Santa Teresinha, firmando a graça de seu devoto.

Estêvão se envergonhou e não tocou mais no assunto. Uma pessoa tão sensível, capaz de realçar a beleza das coisas corriqueiras, transformando-as em versos ritmados, não teve a competência de notar o real encanto daquele dia. Desejou a gratificação em suas mãos, de forma egoísta, fechando os olhos para as coisas ao redor. Enfim, ao menos a história teve um final feliz: além de ter recebido a rosa, o moço também recebera a graça de constatar a manifestação divina naquilo que seus olhos já estavam acostumados a ver.

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