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Mostrando postagens de dezembro, 2020

Fantasmas de um Passado Assassinado

Encontro-me sozinho nesta tarde de sol. Há muito não via um dia tão bonito assim. Um azul prateado revestindo o céu com seu esplendor; as aves cantando ao longe; um vento tímido entrando pela janela e me abraçando; as pessoas conversando na rua; o sol se expandindo no horizonte quase marcando o horário de se pôr. Talvez dure uns quarenta minutos mais, me prestigiando com sua presença. Como eu amo este clima. Tenho a certeza de que se eu pudesse escolher um lugar para nascer, teria escolhido as Minas Gerais. Meu estado! Essa natureza me fascina. Um encanto no tom esverdeado das montanhas ao longe. Que terça-feira agradável. Poderia estar estudando para o concurso, mas resolvi vir aqui deixar marcado este momento. Tudo bem, pode ser que eu tenha me precipitado mais cedo e que a ansiedade quase chegou arrombando as portas do meu coração. Mas me controlei. Não deixei ela entrar. Botei-a para correr como um ladrão. Agora estou calmo. Tranquilo no fim da primavera. Essa ansiedade às vezes me...

Folhas Velhas de Árvores Esquecidas

Foram-se as histórias. A vida passando e a fogueira queimando mais uma vez. Gritos ao longe! Um desespero contínuo a espera da luz.  Os sinos badalam e mais gritos são ecoados ao longe. A fogueira queima e lança as cinzas para o céu. A madeira trepida. Clarão assustador. Tudo está diferente. Tudo mudou.  Inclusive eu. Já não sou mais o mesmo. Observo silenciosamente esses insetos ao meu lado. Moscas sem rumo. Nascidas da sujeira como larvas repulsivas. Costumava semear dentro de mim sentimentos assim: nascidos dos mais ascorosos esconderijos. Eram as moscas do meu íntimo. Traziam uma agitação estridente de pequenas asas em conjunto. Quem diria que eu as semeava enganando-me. Dizendo para mim mesmo que era necessário. As moscas se foram com o fogo. Se foram para nunca mais retornarem. A fogueira as queimou. Mas os gritos... Esses continuam destoando corriqueiramente. Inclusive agora, já que a noite se aproxima mais uma vez. Visto-me de verde nesse fim de tarde. A esperança há d...

Orquestra da Trivialidade

Dia nublado; ânimo amparado pelo cinza envolvente; matizes de pensamentos ultrapassados pelo peso da realidade. Cá estou eu, mais uma vez, com a apostila em mãos. Tenho certeza que irei passar neste concurso para o qual estudo. Só preciso me concentrar... Hoje fluiu mais — como se os obstáculos apinhados se dissolvessem na água para que toda a informação pudesse correr. Minha mente se abriu. Um aroma me trouxe lembranças. Lembranças de dias que não voltam mais. De luzes baixas, corredores longos e passos apressados. Um verdadeiro cortejo nostálgico realçado pelo frio lá fora. Ou pelo perfume que usei. Está aí o aroma. Além de tudo, uma mosca perdida, voando desnorteada, buscou me tirar do sério. Tentei atingi-la algumas vezes, todas em vão. Como se não bastasse a nostalgia, o desespero pelo conteúdo a estudar, o bruxuleio do dia cinza, ainda teve esse inseto voando incansavelmente próximo aos meus ouvidos. Nada comparado a um cenário de filme. São nuances da minha vida corriqueira. Pel...

Venha o que Vier

Já iniciei vários textos e os apaguei. Era como se eles não me pertencessem. Me via e não me via ao mesmo tempo. Loucura fantasiada de bloqueio criativo. Aliás, não gosto deste termo. Ainda que eu não consiga me expressar. Sou como a árvore na ventania. Só deixo cair as folhas que já secaram; pensamentos meditados; palavras somadas ao delírio; intervenção premeditada de reflexos... Como se eu me debruçasse às margens de um rio para me ver: ora a água estaria calma, ora estaria turva. Mas eu sempre veria alguma coisa. As minhas palavras se esgotaram. Sinto que a fonte secou. Ainda hoje escrevi um belo texto sobre a cascata que tocara meu íntimo. Lembro-me de suas águas precipitadas em abundância pela grande pedreira. Um verdadeiro véu mágico que me cobria. Onde está toda essa abundância agora? O deserto chegou cedo demais. Alguma coisa roubou minhas energias. Os bocejos são incessantes.  Paro para meditar e adormeço. Alguém não quer que meus textos sejam escritos.  Mas digo-lhe...

Do Céu ao Papel

Pela janela do quarto eu vejo um céu azul; vejo folhas douradas pelo sol do verão que se aproxima. Os dias estão quentes. Nuvens raleiam o horizonte e aves voam circundando o vazio. Paro e ouço. Tudo está em harmonia! Hoje, por incrível que pareça, consegui controlar minha ansiedade; meu coração não disparou; minha boca não secou; meus olhos não se contraíram. Ainda bem. Acho que descobri o segredo. Há algumas coisas que me fazem bem. E que são particularmente minhas. Pelo menos na interpretação da minha realidade.  A primeira delas é contemplar a natureza. Como dias bonitos como este me trazem paz. Acalentam meu ser. Talvez eu seja capaz de perceber nuances da natureza que ninguém mais consiga. Cores e movimentos. Melodias, também. Algo como um espetáculo feito exclusivamente para mim. Existem momentos em que eu acredito que só por este estado de contemplação vale a pena viver. Por isso dou todo valor ao simples toque de uma folha. Para mim, tudo é mistério. A segunda coisa que pr...