Orquestra da Trivialidade

Dia nublado; ânimo amparado pelo cinza envolvente; matizes de pensamentos ultrapassados pelo peso da realidade. Cá estou eu, mais uma vez, com a apostila em mãos. Tenho certeza que irei passar neste concurso para o qual estudo. Só preciso me concentrar... Hoje fluiu mais — como se os obstáculos apinhados se dissolvessem na água para que toda a informação pudesse correr. Minha mente se abriu.

Um aroma me trouxe lembranças. Lembranças de dias que não voltam mais. De luzes baixas, corredores longos e passos apressados. Um verdadeiro cortejo nostálgico realçado pelo frio lá fora. Ou pelo perfume que usei. Está aí o aroma.

Além de tudo, uma mosca perdida, voando desnorteada, buscou me tirar do sério. Tentei atingi-la algumas vezes, todas em vão. Como se não bastasse a nostalgia, o desespero pelo conteúdo a estudar, o bruxuleio do dia cinza, ainda teve esse inseto voando incansavelmente próximo aos meus ouvidos.

Nada comparado a um cenário de filme. São nuances da minha vida corriqueira. Pelo menos consigo ver beleza nas coisas: o dia está lindo em tom esmaecido. Ao longe, uma orquestra! Ainda que a melodia venha de outro cômodo, suas notas invadem a sala na qual me encontro e compõem o espetáculo de banalidade.

Chega a ser cômico ter tais músicas épicas, dignas dos mais lindos filmes, como trilha sonora da minha manhã trivial, cuja mosca relatada se fez protagonista. Aliás, manhã não mais. O relógio já marca mais de meio-dia. Uma tarde cinza, agora, para a ambição que me enlaça. Voltarei às páginas da apostila, quem sabe assim eu tenha resultados mais positivos.

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