Folhas Velhas de Árvores Esquecidas
Foram-se as histórias. A vida passando e a fogueira queimando mais uma vez.
Gritos ao longe! Um desespero contínuo a espera da luz.
Os sinos badalam e mais gritos são ecoados ao longe.
A fogueira queima e lança as cinzas para o céu.
A madeira trepida. Clarão assustador.
Tudo está diferente. Tudo mudou.
Inclusive eu. Já não sou mais o mesmo. Observo silenciosamente esses insetos ao meu lado.
Moscas sem rumo. Nascidas da sujeira como larvas repulsivas.
Costumava semear dentro de mim sentimentos assim: nascidos dos mais ascorosos esconderijos.
Eram as moscas do meu íntimo. Traziam uma agitação estridente de pequenas asas em conjunto.
Quem diria que eu as semeava enganando-me. Dizendo para mim mesmo que era necessário.
As moscas se foram com o fogo. Se foram para nunca mais retornarem.
A fogueira as queimou. Mas os gritos... Esses continuam destoando corriqueiramente.
Inclusive agora, já que a noite se aproxima mais uma vez.
Visto-me de verde nesse fim de tarde. A esperança há de vir fazer morada onde a fogueira queima.
E assim entram-se os dias, as tardes, as noites. Ora estava eu apanhando frutas de uma árvore desconhecida, ora estava alimentando o fogo do meu viver.
Agora estou aqui. Observando as cinzas no céu, nada contrastadas com as nuvens que preenchem o horizonte.
A fogueira de chama minguante se apaga.
Sinos! Muitos deles. Tão distantes quanto as montanhas. O chão carregado de folhas velhas de árvores esquecidas. Memórias antigas.
Não posso deixar isso assim. Hei de recolhê-las para ver as pedras em tom avermelhado de novo.
O fogo precisa ser alimentado. Os sentimentos ruins já queimaram. Agora só falta queimar as memórias.
Elas me fazem mal. São as vespas. Horrendas. Hediondas.
Preciso queimá-las. Agora!
Atiro-as ao fogo quase morto e espero. Pacientemente.
Não preciso agitar-me por resultados instantâneos. Aprendi que tudo requer tempo e fiz dele meu aliado. Envelheço como um feiticeiro da floresta.
Aprendi a queimar o que me faz mal. Sentimentos, memórias, palavras.
E a fogueira arde em meu íntimo.
As cinzas voam e voam, e se transformam em borbotas selvagens.
Tudo é transformação!
A noite está mais próxima. Consigo ver ao longe as nuvens se dissipando.
A fogueira permanecerá acesa até então.
Quero ver o espetáculo acontecendo. Suas labaredas na escuridão enlaçando o vazio.
Permanecerei aqui, observando.
Contemplando!
E absorvendo cada detalhe desse jogo de luz, sombra, calor e ventania.
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