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Mostrando postagens de outubro, 2023

Saudade de um Jardim

Ah, jardim! Que saudade de você. Como pôde mudar minha vida tão profundamente com mudas tão comuns? Lembro-me da promessa de um dia te eternizar nas veredas dos sonhos que tracei, sentindo teu gramado sob meus pés já tão cansados de caminhar. Talvez tenha sido o clima; talvez o momento; talvez os sinos ao longe; as cores dos muros floridos; as folhas das palmeiras por despencar; o assoalho rangendo com passos graves; vozes dispersas; uma praça vazia; galhos tremulando e folhas se libertando em seu devido tempo. De tudo, acredito ter sido a fonte de água corrente. Correu para mim como nunca havia corrido para alguém, o cristal líquido escorrido entre os dedos , gelando-me a alma acostumada com o calor de histórias bem contadas. As palavras se dissolveram como o sal se dissolve na água. Tua fonte ficou com todos os poemas para si. Sem reclamar, segui adiante, observando os filetes d'água a me acompanhar pelo caminho. Declamavam versos que eram meus. Tão meus que se revoltaram e parti...

Arrependimento de uma Estrela Cadente

Posso dizer que fui liberto pela água gelada. Escorreu os pensamentos e me guiou ao encontro de mim, perdido no vazio da mente, como se isso fosse um problema. Sentir a mente vazia é a solução para muita coisa. Serve para escutar os próprios ecos, rever os próprios reflexos no chão molhado de tantos banhos frios. Agora que tenho de lidar com a vaidade, tudo é motivo para me desvencilhar. Vamos com calma. Rever os conceitos e acertar os alvos no escuro. Vaidade mesmo é pensamento descarrilhado. Um vagão ou outro que se desprendeu da locomotiva. Eu não vou parar a viagem para recolher o que se espalhou. Deixe que alguma coisa floresça quando houver chuvas verdadeiras. Por ora, banhos gelados. E isso já é muita coisa. Às vezes penso em caminhos contraditórios. Como o fato de eu declamar poesias e me sentir eufórico porque alguém ouviu a minha voz. Como se isso me trouxesse uma especialidade perdida, minguante, parecida com uma estrela cadente pouco harmonizada que se recusou a cair por co...

Fantasma de Canto

Tem horas que tudo parece ser em vão. O trabalho que perdura, escorrendo rios em faces baixas, desorientadas, para quê? A conversa dos cantos; ecos de fantasmas amedrontados tentando desenfrear o medo do coração que insiste em bater pelas portas e portas sem fim. Tudo está trancado. Não adianta pulsar por aberturas na esperança de ver jardins. É triste perceber que as coisas mudam para pior, às vezes, até chegar na indiferença. E as ações de nada valem. Porque já não existe reticências. Eu sigo por aqui, catando os cacos, colando os pedaços com as memórias felizes, limpando o chão com o silêncio das perspectivas contrárias. Pensei que estava fazendo o bastante. Reencontrando poesia no que se perdeu entre palavras vazias. Alguém disse que não. E se eu acreditasse? Se eu acreditasse, nem estaria aqui. Nem escreveria. Nem abriria as janelas todas as manhãs. Nem ouviria as músicas de que gosto ou tampouco leria os livros que me tocam o íntimo. Se eu acreditasse, talvez, seria mais um fanta...

Interpretações do Mar (OK)

Demorei muito tempo para entender a que se referia pensar nas ondas do mar. Naquela noite, depois de movimentos trocados, vida revisitada, folhas dobradas, um jogo de luzes para me fazer acreditar, o ritmo ecoado na sala ao lado, ou, quem sabe, na mesma sala, harmonizando-se com meu coração que também batia forte, tremulando os sonhos que se repaginavam, ganhavam outros contextos, giravam em roda de mãos dadas com outros que jamais sonhei, as palavras surgiram vagas e sutis: pense nas ondas do mar. Foi o que me disseram. Alguma coisa estava dentro. Virei o copo que tinha nas mãos e olhei atentamente aos olhos que, por si, já eram ondas: não se esqueça, pense nas ondas do mar. Não foi difícil pensar nas praias brancas de ondas cristalinas retumbando nas pedras preciosas do tinha como mente. O quadro estava pintado. E as virgulas se esvaíram. O nome do artista eu perdi. Já não consigo me lembrar daquele com quem dividi o copo. Só tinha aquilo: uma praia para caminhar e molhar os pés da p...

Cores que não se perderam (OK)

Nesta última semana eu me fragmentei num céu de mosaicos. As cores que antes davam as mãos umas às outras se soltaram. Caíram do firmamento. Viraram poeira no horizonte e se varreram com o vento por debaixo dos nossos pés.  Corri para salvar o que estava perdido. Fazer fogo em meio à chuva de verão. O céu se enegreceu e se pontilhou. Estrelas de pérolas no grande oceano da angústia velada. Naveguei num barco pequeno tentando pegar de tudo. Por pouco não me afundei. Consegui chegar à uma margem estranha, todavia muito acolhedora. Acolheu-me na simplicidade das horas que sempre passaram iguais. Sempre estiveram ali, brincando de crianças do mar. Respirei fundo para sobreviver. Senti a noite nos meus braços. Perdi tudo quanto pude colocar no pequeno barco que usei. Na praia, tudo era pedra e areia. O barco se desprendeu e se foi para longe. Eu, estando ali, pontilhando o horizonte sem ser uma estrela, olhei para cima e vi o futuro. Um dia, meus olhos se fechariam para sempre. Mas, por...