Arrependimento de uma Estrela Cadente
Posso dizer que fui liberto pela água gelada. Escorreu os pensamentos e me guiou ao encontro de mim, perdido no vazio da mente, como se isso fosse um problema. Sentir a mente vazia é a solução para muita coisa. Serve para escutar os próprios ecos, rever os próprios reflexos no chão molhado de tantos banhos frios. Agora que tenho de lidar com a vaidade, tudo é motivo para me desvencilhar.
Vamos com calma. Rever os conceitos e acertar os alvos no escuro. Vaidade mesmo é pensamento descarrilhado. Um vagão ou outro que se desprendeu da locomotiva. Eu não vou parar a viagem para recolher o que se espalhou. Deixe que alguma coisa floresça quando houver chuvas verdadeiras. Por ora, banhos gelados. E isso já é muita coisa. Às vezes penso em caminhos contraditórios. Como o fato de eu declamar poesias e me sentir eufórico porque alguém ouviu a minha voz. Como se isso me trouxesse uma especialidade perdida, minguante, parecida com uma estrela cadente pouco harmonizada que se recusou a cair por completo e preferiu dar meia volta e retornar ao breu do universo infinito. Que diferença isso faz em meio a constelações? Tantas estrelas querendo cair, enquanto a menor, munida de vaidade, se recusa. Tem coisas que eu ainda não sei lidar. Mas vou aprender, com o tempo.
De tudo, veio-me à mente outras emoções. O fato do reconhecimento ser importante nessa altura do campeonato, segundo algumas vozes do além, fez com que eu me intimidasse diante do espetáculo produzido. Falei por alguns minutos para os meus, quebrando todas as correntes e desfazendo todos os mal-entendidos. Estes que foram construídos ao longo de muitos anos. Se de alguma coisa valeu, que seja para replantar uma nova paisagem. Sinto falta de vagalumes pelas noites. Também sinto falta do completo silêncio. Tamanha incoerência para quem resolveu falar pelos quatro cantos e agora vem se preocupando com coisas tão banais.
Caríssimo, você já aprendeu a lidar com tantas emoções negativas; acho que está na hora de aprender a lidar com as positivas. O que você acha? Existem pessoas que te admiram. Enquanto outras, equilibram a balança. Faz parte. Vamos iluminar as coisas: primeiro, essas locomotivas de palavras; segundo, esses desejos ilusórios; terceiro, essas incertezas lancinantes; e por vai quarto, quinto, sexto... Muitos candelabros em cima de uma mesa, de uma sala vazia.
Tudo bem que você não chega a ser a estrela que se recusou a cair, mas vive dando festas aos fantasmas que criou. É hora de repaginar as folhas escritas. Talvez as primeiras sejam as ultimas e as ultimas, as primeiras. Ninguém tem culpa quanto a isso. A euforia pela voz ecoada na sala vazia é apenas um mal entendido. Abra a porta, deixe todos entrarem. Fale de novo o que quiser. Qualquer um pode ver a sua alma pelos seus olhos. É clichê falar assim, mas convenhamos: um clichê bem interpretado é a estrela cadente arrependida. Vamos deixá-la iluminar o céu pelos segundos dispostos. Existirão outras por aí, em seguida, para roubar a cena. Às vezes, quem sabe, o maior desejo entre elas seja o de mergulhar em um oceano gelado para conhecer a semelhante que lá habita. Ao menos nós, já caídos, conseguimos tomar banhos de água gelada para nos reconhecermos nos espaços vazios de um dia que se foi sem ser lembrado.
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