Fantasma de Canto

Tem horas que tudo parece ser em vão. O trabalho que perdura, escorrendo rios em faces baixas, desorientadas, para quê? A conversa dos cantos; ecos de fantasmas amedrontados tentando desenfrear o medo do coração que insiste em bater pelas portas e portas sem fim. Tudo está trancado. Não adianta pulsar por aberturas na esperança de ver jardins. É triste perceber que as coisas mudam para pior, às vezes, até chegar na indiferença. E as ações de nada valem. Porque já não existe reticências.
Eu sigo por aqui, catando os cacos, colando os pedaços com as memórias felizes, limpando o chão com o silêncio das perspectivas contrárias. Pensei que estava fazendo o bastante. Reencontrando poesia no que se perdeu entre palavras vazias. Alguém disse que não. E se eu acreditasse? Se eu acreditasse, nem estaria aqui. Nem escreveria. Nem abriria as janelas todas as manhãs. Nem ouviria as músicas de que gosto ou tampouco leria os livros que me tocam o íntimo. Se eu acreditasse, talvez, seria mais um fantasma de canto, ecoando o medo porque alguém me disse para desistir.
Nesses dias, as cigarras resolveram cantar. E tudo podia ser uma mentira embasada no canto que se canta até estourar. Ninguém viu, mas todos ouviram falar. A a vida vai sendo levada pelos medos construídos ao se soltar as vozes. Isso porque alguém, algum dia, resolveu dizer que as cigarras estouram. Nada como o tempo para reverter a situação. Conheci gente que era flor de seda antes de ser fantasma. Estrela antes de se cortar o fio da meada. Falava daqui e dali, semeava o entusiasmo pelas horas vividas, corridas, entreabertas como uma velha porta de madeira deixando a luz adentrar, até que a grama foi pisada e enlameada. A chuva veio, empoçou os desejos; o jardim já não era um lugar de silêncio e as histórias deixaram de fazer sentido. Ah, cigarras estouradas. Podiam falar a verdade ao menos uma vez. Essa bobagem de fantasmas, de cantos, de memórias marginalizadas pouco importa numa hora dessas. É apenas recurso para tentar dizer o indizível. Comparação boba que se encontra nos limites das calçadas feitas de pedra. Pedra mesmo não se enlameia. Para se ter um gramado bonito, é preciso cuidado; é preciso gostar do verde que se espraia pelo chão onde se pisa. Para tanto, pisar tem de ser sinônimo de se sustentar. Manter-se de pé para contemplar o silêncio que as cigarras não fazem. Mas está por aí. Nenhuma delas virou fantasma de canto, e ainda assim, tem gente que acredita.

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