Cores que não se perderam (OK)

Nesta última semana eu me fragmentei num céu de mosaicos. As cores que antes davam as mãos umas às outras se soltaram. Caíram do firmamento. Viraram poeira no horizonte e se varreram com o vento por debaixo dos nossos pés.  Corri para salvar o que estava perdido. Fazer fogo em meio à chuva de verão. O céu se enegreceu e se pontilhou. Estrelas de pérolas no grande oceano da angústia velada. Naveguei num barco pequeno tentando pegar de tudo. Por pouco não me afundei. Consegui chegar à uma margem estranha, todavia muito acolhedora. Acolheu-me na simplicidade das horas que sempre passaram iguais. Sempre estiveram ali, brincando de crianças do mar. Respirei fundo para sobreviver. Senti a noite nos meus braços. Perdi tudo quanto pude colocar no pequeno barco que usei. Na praia, tudo era pedra e areia. O barco se desprendeu e se foi para longe. Eu, estando ali, pontilhando o horizonte sem ser uma estrela, olhei para cima e vi o futuro. Um dia, meus olhos se fechariam para sempre. Mas, por ora, ainda estavam abertos e eu podia continuar.

Saber de valores numa hora dessas é como ser jardineiro no outono. De um lado, memórias; do outro, folhas secas. E a gente vai... Vai por aí, redescobrindo as cores, recolhendo os cacos para um novo mosaico, fazendo de ideias outros sonhos, marejando os olhares com outras canções, sentindo saudade do que antes era comum, e vivendo para ser mais um ponto no horizonte. Diante das multidões, somos sempre perdidos. A estrada só se revela na solidão de um verso incompreendido. Assim, compreendo que existem pessoas que jamais tornarei a ver, páginas que nunca mais lerei, vidas que se esqueceram de amanhecer e estrelas que se perderam antes do sol surgir. Eu, olhando para esta tela, diante das palavras latentes, vibrando com os acontecimentos de uma nova existência, andei na beira do precipício sem construir pontes. Quase fui ao fundo sendo poesia; pétala de rosa que se rompeu. Mas o vento me levou para o outro lado. E estou aqui. Sendo eu mesmo e me conhecendo nas reminiscências das muitas vidas que vivi. Valeu a pena vir tão longe. Valeu a pena ter navegado e perdido a embarcação. Valeu a pena quebrar outros vitrais para reposicioná-los sob outras estrelas. Tudo quanto há virou poesia nas mãos de quem nada tinha. E os versos eram nada senão cores perdidas. A alegria surge pelas menores frestas de uma tempestade. Vivamos de nos escancarar.

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