Saudade de um Jardim

Ah, jardim! Que saudade de você. Como pôde mudar minha vida tão profundamente com mudas tão comuns? Lembro-me da promessa de um dia te eternizar nas veredas dos sonhos que tracei, sentindo teu gramado sob meus pés já tão cansados de caminhar. Talvez tenha sido o clima; talvez o momento; talvez os sinos ao longe; as cores dos muros floridos; as folhas das palmeiras por despencar; o assoalho rangendo com passos graves; vozes dispersas; uma praça vazia; galhos tremulando e folhas se libertando em seu devido tempo. De tudo, acredito ter sido a fonte de água corrente. Correu para mim como nunca havia corrido para alguém, o cristal líquido escorrido entre os dedos , gelando-me a alma acostumada com o calor de histórias bem contadas. As palavras se dissolveram como o sal se dissolve na água. Tua fonte ficou com todos os poemas para si. Sem reclamar, segui adiante, observando os filetes d'água a me acompanhar pelo caminho. Declamavam versos que eram meus. Tão meus que se revoltaram e partiram assim que descobriram quantas verdades um jardim podia ter.
Dentre todas as coisas já faladas, o que quase me dissolveu assim como aconteceu ao sal e às palavras, foi o silêncio que vinha de dentro para fora. Assim que atravessei teus portões, senti-me em paz. Contudo, foi forte demais. Eu não estava acostumado com tanto. Comecei a observar o balanço das flores, o movimento das nuvens no céu, as sombras fugindo pela transversal, as paredes brancas refletindo o deserto da alma que clamava sem ser ouvida, a ampla varanda com muitos bancos sem qualquer um que lá pudesse se assentar. Tomei a iniciativa. Assentei-me e ouvi o que tinha a me dizer. Disse que me acompanharia para sempre e não mentiu. Tanto tempo depois, ainda te vejo por aí, nos quintais de infinitas casas. Infinitos versos nunca ouvidos porque as mãos que o semeou não tinham a destreza para decifrar a tua linguagem. 
Lá para frente, depois de cessada a saudade e cumprida a promessa, decifrarei teus poemas e os colocarei numa folha de papel. Em troca, você me devolve aqueles que me roubou por tua fonte de água cristalina. Na verdade, é melhor não. Fique com eles como uma lembrança do jardim que eu havia plantado dentro de mim, no quintal do meu coração muito bem cuidado e inspirado por você naquela tarde onde todos os sentimentos viraram um só. A prova viva da saudade que senti e ainda sinto. Não seria esta uma ação da vida replantando mudas tão simples em solos preciosos? Para mim, você é um lugar; e para você eu fui o infinito quando te escolhi para florir os meus dias.

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