Interpretações do Mar (OK)
Demorei muito tempo para entender a que se referia pensar nas ondas do mar. Naquela noite, depois de movimentos trocados, vida revisitada, folhas dobradas, um jogo de luzes para me fazer acreditar, o ritmo ecoado na sala ao lado, ou, quem sabe, na mesma sala, harmonizando-se com meu coração que também batia forte, tremulando os sonhos que se repaginavam, ganhavam outros contextos, giravam em roda de mãos dadas com outros que jamais sonhei, as palavras surgiram vagas e sutis: pense nas ondas do mar. Foi o que me disseram.
Alguma coisa estava dentro. Virei o copo que tinha nas mãos e olhei atentamente aos olhos que, por si, já eram ondas: não se esqueça, pense nas ondas do mar. Não foi difícil pensar nas praias brancas de ondas cristalinas retumbando nas pedras preciosas do tinha como mente. O quadro estava pintado. E as virgulas se esvaíram. O nome do artista eu perdi. Já não consigo me lembrar daquele com quem dividi o copo. Só tinha aquilo: uma praia para caminhar e molhar os pés da poesia que começava a me perseguir.
Tempos depois, aconteceu um desdobramento de maré cheia e maré baixa. Interpretação que se condicionou pelas noites todas escuras e sons de trovões fora da tormenta. Alguma coisa fazia o mar recuar. E eu percebi que isso era vida. Movimento pouco ritmado que aos ouvidos mais apurados podia ser canção. Algumas histórias também poderiam acompanhar o recuo, como se faz numa folha em branco; quando houvesse novamente a cheia, outra margem, outro papel, outras histórias sem fim tomariam a vez. Então, tive nas mãos o segredo dos livros de muitas narrativas. Adormeci, como fiz por todas as noites, e sonhei com as ondas verdadeiras pela primeira vez. Viver, então, era movimento de maré.
Mas o caso não acabou por aí. Por vezes, me cansei. O calor do sol me atordoava. Como poderia então traçar um caminho ao meio-dia? Andar pelas ruas sem sombras, queimando o pouco que tinha raciocinado com meia dúzia de palavras? Condições do que se encontrava fora, às quais eu não poderia jamais me fazer refém. Se podia controlar algo, seria as marés internas. Aquelas que dependiam de mim. E, por mais uma vez, consegui caminhar pela praia. Aquela areia, aquelas pedras, aquele vento, tudo como era antes, ganhava outra interpretação. O sol dali não me atingia como o sol de lá. O outro sol que não dependia da minha vontade. Por quê? Ou existiam muitos sóis ou... bem, ou eu acabava de descobrir o segredo dos livros de apenas uma narrativa. A partir daí, tudo era praia. O vento que entrou por minha janela era o mesmo que trazia a maresia por outras janelas infinitamente distantes de mim. E eu ouvi o som das ondas quebrando nas pedras. Eram outras poesias.
Não tenho a paisagem do mar verdadeiro quando acordo, mas o carrego dentro de mim. Porque o que faço do lado de dentro pode ser infinito tanto quanto o mar. A expressão das ondas é movimento de respirar do meio. Que é vivo! Sempre haverá uma praia para se caminhar quando se faz de um amplo horizonte a arte de viver. Quanto mais amplo, mais próximo do mar, mais vida cantando a melodia do infinito, pássaros confundindo os limites, flores de outras épocas, vírgulas de outras narrativas, pensamentos de montanhas distantes. E por falar em distância, ainda não sou um homem do mar, mas consigo mergulhar em todos os mares pelas palavras que escrevo.
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