Correnteza de Viver

Nem tudo se precipita ao rio que corre valente, revelando-se a cada curva como algo novo de viver. As folhas se desprendem, voam por segundos fingindo ser aves migratórias até mergulharem depois da margem agitada para ser peixe que nunca aprendeu a nadar. O caminho quem escolheu mesmo foi o rio. A folha só seguiu o destino. Quem olhava de fora, queria ser todas as folhas desprendidas. Sem entender a perda que elas encaravam quando contornavam a primeira das infinitas curvas.

Longe do rio, outras perdas, outras correntes, outras árvores e outros contornos. A vida nunca parou de correr e de desprender folhas dos nossos galhos. A arte da despedida é para poucos; aperfeiçoada como acender uma fogueira na escuridão. Posso dizer que já quis ter asas, já quis ter raízes, já escrevi poemas para os sonhos que nunca vivi, porque não conseguia pressupor o que vinha adiante. Olhava da margem as flores dos ipês soltando-se para formar um maravilhoso tapete, enquanto outras florezinhas murchavam na esperança de um dia voar. Perdiam a imponência da cor justamente porque não acreditavam em si mesmas. Queriam o rio sob seus pensamentos delirantes de um dia poder ver o céu por outra perspectiva. Nunca perceberam que a mesma água que corria lá, dava a volta no mundo para cair onde estavam plantadas e que o final era o início e vice-versa, como uma história recontada por vozes. Vozes de quem ouviu a melodia da chuva, da cascata, das horas entreabertas em passos ritmados de uma viagem pouco planejada, contudo preestabelecida a quem visse o mundo da varanda de sua casa. Pomares infinitos, riachos tranquilos que nunca guardaram um segredo porque eram cristalinos, aves felizes, cães leais, abelhas nas flores e vida cheia de amores pelos cantos das sala e pela mesa posta para que se compartilhasse poucos meandros de todos os rios que já existiram.

Hoje não quero ter asas, tampouco raízes. Sou feliz tendo meus pés calejados, acostumados a andar descalços pelos quintais por onde passei. Não dei a volta no mundo, não desci a correnteza, não virei chuva onde havia seca, não contive as lágrimas quando quis chorar, não acertei todas as vezes; contudo, plantei flores num pequeno jardim onde me via todos os dias e me entendia como pessoa amada. Havia alguns pássaros ali, vendo o espetáculo que não se precipitava à margem mas que passava como uma corrente tímida de um rio que queria ser lagoa. Horas depois, a noite veio e tudo se transformou. Recolhi-me na esperança de um novo amanhecer para recomeçar depois do ponto final. Assim, foram-se os rios, os ipês amarelos, as folhas que jamais retornaram e o desejo de nunca ter sido o que sempre fui. 

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