Eu e Parte de Mim
Por que vivo me imaginando sentado em uma poltrona, lendo livros encantados? Que histórias marginalizadas são essas que tanto faço contato no pensamento? Digo que estão à margem por não mergulharem de uma vez na correnteza da minha vida. Volto ao passado, vejo palavras simples, envergonho-me de ter sido tão pouco quando poderia ser muito. Mas fui o que fui e agora a imagem: um velho senhor, realizado com as coisas a sua volta, de costas para uma janela de onde se projeta um jardim de muitos sonhos. Seria uma das muitas faces que tenho de mim? Ou eu não me conheço suficientemente bem para saber que tipo de pensamento é este? A vida continua carregando gracejos, enquanto as aves mergulham sem medo nesse rio que sou eu e, ainda assim, nem sequer toquei com os pés o leito de areia macia. É o que eu acredito. Uma loucura, atrás de muitas outras. Pedras que se revelam quando há seca. Eu devo ter me desequilibrado com os dias mais quentes que o normal para falar coisas assim. Essa conversa de rio da vida, jardins verdejantes e livros encantados está me dando uma preguiça. Como se tudo fosse uma eterna poesia acompanhada pela harpa desafinada. Vim aqui saciar minha vaidade. Li textos antigos; textos de quase dez anos atrás e achei um horror. Por isso, para me provar, quis mostrar que melhorei. Ah, ah, surpresa! Acho que não. Palavreado de inconstância previsível. É o calor, só pode. Todas as mesmas coisas, rodando sem parar, no texto e no quarto onde escrevo. Aquele que vinha escrever há dez anos, presunçoso, pedante, ao mesmo tempo tão fragilizado por pouco se conhecer, ressurgiu. Está aqui. E eu o agradeço por ter existido. Já o perdoei. Muito embora eu mesmo é que tinha de pedir perdão, por ter desprezado este ser acostumado com as subtrações. Meu eu, minha parte, você mesmo que se achava tanto para não encarar a verdade das conjunturas, por não saber quem realmente era e o que queria para si, fico feliz por estar aqui agora podendo me acompanhar ao longo dessas linhas rarefeitas. Continuamos escrevendo; ora se aproximando, ora se afastando, mas sempre escrevendo. E você, assim como eu, encontrou uma razão em meio à tormenta. Agora, vivemos por aí, nas palavras escritas e reescritas. Nas mensagens passadas e nas horas forçadas. Forçamos os ponteiros para chegarmos no ponto de partida. E assim, repartirmos. Mais uma vez, entre tantas vezes. Eu e parte de mim.
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