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Um pedaço do infinito que se partiu

Querer o fim da chuva. O sol depois das seis. Os dias mais quentes. O coração aconchegado nos fins de tardes existenciais. A lua virou-se para a estrada, deixou a noite como espetáculo. O palco montado, pessoas chegando, o jeito de ser, vozes entrelaçadas pelas redondezas da imaginação; eram passos e mais passos, enchendo o teatro. Queriam ver a tragédia. Queriam ver o outro sofrer, o outro cair, o outro se corromper... Mas não viram. Olharam-se no espelho. Eram máscaras de vaidades. As terceiras pessoas. De cujas vírgulas roubei.  Na verdade, roubei tudo. As vírgulas e as pessoas. Juntei tudo no baú das lembranças, até se formarem aos moldes de memórias vazias. O que fiz ontem? Por onde andei? Com quem estive? Por que me esquivei? Levaram-me pelos idos horizontes, pelas curvas de todas as dúvidas. Duvidei de mim mesmo, do meu jeito, da minha aparência, da minha voz, do meu estilo, da minha capacidade, do meu existir. Duvidei que fosse gente, que fosse capaz. Duvidei que um dia não...

O tempo, o caminho e o recomeço...

Minha vida está mudando para melhor. Estou conquistando, pouco a pouco, o meu espaço. Quanta coisa mudou de lá para cá; os três, os novo, os todos metros quadrados aos quais eu, por livre vontade, costumava me prender. Agora que tenho mil e um horizontes, infinitas janelas, as ruas dos meus jardins, volta ao espaço pequeno onde voava às vezes. Voava pelas linhas, pelos recomeços, pelos parágrafos marginais, tantas vezes às margens de mim. E a música continua. Alcança os infinitos dos meus dias corridos. Eu até que cogitei a ideia de não voltar. Virar as costas. Enxergar o destino como uma linha reta. Tudo para pegar a caneta e escrever lentamente no papel que ainda estou tentando e tentando, sabe-se lá o que mais. Contudo, as linhas se arrebentaram. Estava no espaço, na escuridão de tudo quanto há, na grandeza das coisas pequenas. Vi o passado, voltei e reaprendi. Retornar também é andar para frente. E as voltas da vida ressurgiram. De novo ao futuro. Brincando com o presente. O tempo ...

Paisagem de Existir

Cortinas nas janelas. Ventania no coração. Algo balança de cá, ressoa de lá, naquela paisagem de tantos anos. Ressignificando o horizonte de caminhar. Caminhei por aquelas bandas, jogando com as nuvens que voavam acima, molhando os pés nos riachos, cantando com os pássaros algo novo para me animar. E não é que cheguei aqui... Por inúmeras estradas, debruçando-me neste parapeito e sentindo o vento soprar. E lá se vão as cortinas, escancarando tardes preciosas de sol, contrastadas no verde de montanhas e no azul de todos os infinitos. Quantos foram mesmo? Um punhado que cabia na palma da mão, jogado ao caminho para germinar. É bom que tudo tenha a oportunidade de virar jardim um dia.

Outro Momento

Estou doente já faz algum tempo. Essa doença de se olhar no espelho e não se reconhecer. De primeiro ouvia o canto dos pássaros e me emocionava com isso. Agora? Agora só desespero. Eu me perdi no meio do caminho. Achei que estava tudo bem. Senti a segurança dos iniciantes e me esqueci de manter o norte. Não deu outra. Dentro de poucos dias, os passos deixaram de fazer sentido. E tudo se desfez em nuvens de poeira. Quero falar um pouco de mim. Ou melhor, do que eu costumava a ser. Havia calma pelos cantos. A mente distinguia as cores da tarde. As palavras se ligavam umas as outras. Alguém cantava uma canção para eu ouvir. Eu gostava disso. Era algo que me emocionava. Também percebia mais o verde das plantas, o vento adentrando, a hora de tomar café e as páginas que virava. Parece que já faz muitos anos. Aqueles momentos de se ler em paz. Já perdi meus poderes de leitor e agora tento me reinventar voltando à casa dos sonhos perdidos, ao barco deixado na praia, à caixa secreta daquilo que...

Poeira na Janela

Estou queimando a pouca lenha que me resta. As coisas perderam um pouco do sentido. Nesses tempos de enxurrada, poças d'água não são vistas. Poderia eu pisar uma a uma, ondulando o avesso para me completar nas tremulações dos reflexos. Mas tudo se perdeu. As pedras, as calçadas, a rua que vira à esquerda, a chuva fina que molha o vidro da janela e que não ousa entrar. É isso. Falta-me ousadia de existir. Pensei que jamais voltaria ao espaço esquecido. Porque esquecer é cair para baixo dos panos. Algo que perdeu a utilidade por requerer muito tempo. Alguns míseros minutos de um dia que se estende como uma toalha pequena em uma mesa maior. São tantas as cadeiras vazias. As ausências que ocupam espaço. Os desconfortos encostados em almofadas coloridas. É uma pena que as coisas tenham caminhado por este rumo. Sem norte e sul, mas um emaranhado de ideias de passos marcados em terra molhada que apenas suja os sapatos. Daí a vergonha de voltar para casa e manchar os tapetes, arranhar o pi...

À Margem

 Quanto tempo não apareço nesta terceira margem de mim. Neste iluminado pôr do sol, de nuvens prateadas pela timidez de uma tempestade. Que vergonha é esta? Da nuvem ser nuvem, do sol ser sol, de mim ser um outro qualquer. Por que não posso ser eu mesmo? Ainda escrevo, mas perdi alguma coisa que não sei o que é. Queria sentir aquela sensação de estar por aí, andando sem rumo, tropeçando nas palavras para me moldar como ser que pensa e esfarela cada pensamento. Migalhas. Luzes de outras janelas. Eu me perdi, de fato. E está difícil me reencontrar. Esta fase está chegando ao fim. Outra estrada. Desafio de cem noites, saindo de mim para me tornar alguém que tem forma. Tantas coisas mudaram. Esta janela à minha esquerda mostra outra paisagem. Mais bonita, tanto que jamais imaginei que pudesse existir. As plantas crescem lentamente. Muito embora eu perceba cada nova folha exposta. Vivo de aprender, encontrando nos livros um apoio para caminhar. Uma armadilha de palavras para prender pás...

Flores Livres (OK)

Foram-se os sons da noite Retumbando os mistérios de viver. Para além do horizonte, Luzes de morrer. As notícias chegam por todos os lados. Rio de sonhos inundado Por sangue derramado Dos que acordaram na escuridão. Nós não acordamos àquela hora. Fizemos barulho enquanto eles se calaram. Tiramos fotos e estampamos as capas dos jornais. Ninguém quis saber o que houve. Mas lá estava, no chão batido, No tempo passado da noite esquecida, A lágrima desprendida Que fez brotar a mais simples de todas as flores. Ainda assim, era uma flor. Trouxe paz em meio à guerra. Amanheceu a madrugada Rasgando o breu bombardeado Para contemplar a solidão de nascer bela frente ao desespero. Jamais soube que outras flores formavam jardins. Foi-se embora no mesmo dia Ouvindo vozes exaltadas. Perdeu a chance de sentir na alma Uma canção que fosse, Porque, para ela, o som era batalha. Jamais entenderemos a sensação De nascer aquém do horizonte Onde existir já é resistência. Ninguém sequer mensurou o privilégio ...