Vocação à Vida é meu Presente de Natal
Era 21 de dezembro do ano de 1994 quando a bolsa de minha mãe, Madalena, estourou no sexto mês de gravidez, faltando uma semana para o sétimo. Preocupada, sem pensar duas vezes, ela pegou o carro e, sozinha, dirigiu-se de Mar de Espanha a Bicas, o que dava aproximadamente uns vinte quilômetros, para consultar-se com seu médico.
Ao chegar à clínica, foi recebida de imediato para um exame de ultrassonografia. Deitou-se na cama e esperou pelas palavras do doutor enquanto o mesmo manuseava o aparelho com o olhar fixo no monitor. Já havia mexido em seu estetoscópio por diversas vezes, posicionando-o de diferentes formas, até que resolveu quebrar o silêncio da sala.
— Não há sinais cardíacos. — Suas palavras pareciam navalhas cortantes. — O feto aparenta estar sem vida, você precisa ir para Juiz de Fora imediatamente.
Coitada de minha mãe ao ouvir aquelas duras palavras. Com quase quarenta anos, grávida do terceiro filho, sentiu que havia falhado, de alguma forma. E ignorando o conselho do médico, voltou para casa, desolada.
Já era bem tarde quando minha avó a esperava no portão ainda molhado devido às chuvas passageiras que anunciavam o início do verão.
— O que houve?
— A criança está morta! — minha mãe respondeu.
Abatida, entrou em casa pela porta da cozinha à luz minguante daquele crepúsculo melancólico.
Vó Zulmira acendera uma vela para Nossa Senhora na mesa de jantar. Já havia rezado o terço àquele dia. Quando ouviu as palavras da filha, não soube como reagir, apenas consolá-la com o silêncio de sua presença.
À noite o telefone tocou.
— Madalena — era um outro obstetra que soubera do ocorrido —, por que você não foi para Juiz de Fora? — advertiu. — Se a criança beber a água da placenta, ela terá traumas irreversíveis para o resto da vida! E se faltar oxigênio...
— Você não entendeu? — Ela interrompeu. — Não faz mais diferença, a criança está morta! Ninguém nasce no sexto mês de gestação.
— Sim, mas de qualquer forma é melhor você ficar sentada, sem se movimentar, para não vazar a água que ainda resta...
Um suspiro de tristeza abafou a voz do médico.
Minha mãe concordou com suas palavras e desligou o telefone. Estava cansada. Sabia que no dia seguinte iria tirar um feto sem vida de dentro de si. Passou a madrugada sozinha sentada no sofá, enquanto vó Zulmira caminhava pelo corredor com seu terço e suas orações.
Meu pai, caminhoneiro, não estava em casa...
No dia seguinte, quando chegou à Maternidade Santa Teresinha em Juiz de Fora, foi recebida pelos enfermeiros. Fez todo o procedimento necessário para iniciar a cesárea e aguardou o efeito da anestesia. Cada segundo parecia interminável em sua cabeça, sem contar que o horário de verão ainda era uma novidade àquela época, agravando o esgotamento.
Naquele momento de silêncio, ela se sentiu inerte. Olhava ao redor e nada via além da claridade refletida nas paredes; foi então que iniciou uma oração em seu íntimo:
“Minha Nossa Senhora, nas suas mãos entreguei os meus dois primeiros filhos no momento do parto. Não seria diferente com este, que nascerá sem vida. Que a Senhora interceda por sua alma”.
Um estalo soou no recinto e a porta se abriu. O médico e os enfermeiros adentraram o quarto vestidos com seus uniformes verde-água e luvas de borracha para iniciar o procedimento cirúrgico. A hora havia chegado.
“Agora está em suas mãos!”
Às 11:30h da manhã, um choro de criança ecoou pelos corredores do hospital. A mulher, grávida de seis meses, havida dado à luz.
— Como assim? — cochichavam.
— Também não entendi. Nasceu saudável e já está sendo amamentado.
Quando entravam no quarto para ver a criança, se surpreendiam com o tamanho.
Diziam entre trocas de olhares suspeitos que eu era muito pequeno e não ia sobreviver.
— Já tem um nome?
— Filipe — minha mãe respondia jubilosa a todos que perguntavam, enquanto me envolvia em seus braços.
Ao contrário das crianças prematuras que ficam meses nas incubadoras, no dia seguinte eu já estava em casa e iria passar em família o meu primeiro natal. Vó Zulmira, quando me viu, disse:
— Pobrezinho, este não vai crescer muito! — Seu comentário fora refutado quando, aos quatorze anos, passei de um metro e noventa centímetros de altura.
Algumas semanas após o meu nascimento, recebi o sacramento do batismo no Santuário de Nossa Senhora das Mercês, tendo como padrinhos o meu irmão Fábio e minha irmã Flávia. Desde então, nunca precisei fazer uso de nenhum medicamento. Em 2013 obtive o Certificado Médico Aeronáutico, provando não haver nenhuma sequela da noite que passei no ventre de minha mãe com a bolsa estourada.
Entendemos esse ocorrido como um propósito de Deus que, pela intercessão de Nossa Senhora, me concedeu o dom da vida. De tal maneira que é meu dever fazer jus a essa oportunidade.
Ao chegar à clínica, foi recebida de imediato para um exame de ultrassonografia. Deitou-se na cama e esperou pelas palavras do doutor enquanto o mesmo manuseava o aparelho com o olhar fixo no monitor. Já havia mexido em seu estetoscópio por diversas vezes, posicionando-o de diferentes formas, até que resolveu quebrar o silêncio da sala.
— Não há sinais cardíacos. — Suas palavras pareciam navalhas cortantes. — O feto aparenta estar sem vida, você precisa ir para Juiz de Fora imediatamente.
Coitada de minha mãe ao ouvir aquelas duras palavras. Com quase quarenta anos, grávida do terceiro filho, sentiu que havia falhado, de alguma forma. E ignorando o conselho do médico, voltou para casa, desolada.
Já era bem tarde quando minha avó a esperava no portão ainda molhado devido às chuvas passageiras que anunciavam o início do verão.
— O que houve?
— A criança está morta! — minha mãe respondeu.
Abatida, entrou em casa pela porta da cozinha à luz minguante daquele crepúsculo melancólico.
Vó Zulmira acendera uma vela para Nossa Senhora na mesa de jantar. Já havia rezado o terço àquele dia. Quando ouviu as palavras da filha, não soube como reagir, apenas consolá-la com o silêncio de sua presença.
À noite o telefone tocou.
— Madalena — era um outro obstetra que soubera do ocorrido —, por que você não foi para Juiz de Fora? — advertiu. — Se a criança beber a água da placenta, ela terá traumas irreversíveis para o resto da vida! E se faltar oxigênio...
— Você não entendeu? — Ela interrompeu. — Não faz mais diferença, a criança está morta! Ninguém nasce no sexto mês de gestação.
— Sim, mas de qualquer forma é melhor você ficar sentada, sem se movimentar, para não vazar a água que ainda resta...
Um suspiro de tristeza abafou a voz do médico.
Minha mãe concordou com suas palavras e desligou o telefone. Estava cansada. Sabia que no dia seguinte iria tirar um feto sem vida de dentro de si. Passou a madrugada sozinha sentada no sofá, enquanto vó Zulmira caminhava pelo corredor com seu terço e suas orações.
Meu pai, caminhoneiro, não estava em casa...
No dia seguinte, quando chegou à Maternidade Santa Teresinha em Juiz de Fora, foi recebida pelos enfermeiros. Fez todo o procedimento necessário para iniciar a cesárea e aguardou o efeito da anestesia. Cada segundo parecia interminável em sua cabeça, sem contar que o horário de verão ainda era uma novidade àquela época, agravando o esgotamento.
Naquele momento de silêncio, ela se sentiu inerte. Olhava ao redor e nada via além da claridade refletida nas paredes; foi então que iniciou uma oração em seu íntimo:
“Minha Nossa Senhora, nas suas mãos entreguei os meus dois primeiros filhos no momento do parto. Não seria diferente com este, que nascerá sem vida. Que a Senhora interceda por sua alma”.
Um estalo soou no recinto e a porta se abriu. O médico e os enfermeiros adentraram o quarto vestidos com seus uniformes verde-água e luvas de borracha para iniciar o procedimento cirúrgico. A hora havia chegado.
“Agora está em suas mãos!”
Às 11:30h da manhã, um choro de criança ecoou pelos corredores do hospital. A mulher, grávida de seis meses, havida dado à luz.
— Como assim? — cochichavam.
— Também não entendi. Nasceu saudável e já está sendo amamentado.
Quando entravam no quarto para ver a criança, se surpreendiam com o tamanho.
Diziam entre trocas de olhares suspeitos que eu era muito pequeno e não ia sobreviver.
— Já tem um nome?
— Filipe — minha mãe respondia jubilosa a todos que perguntavam, enquanto me envolvia em seus braços.
Ao contrário das crianças prematuras que ficam meses nas incubadoras, no dia seguinte eu já estava em casa e iria passar em família o meu primeiro natal. Vó Zulmira, quando me viu, disse:
— Pobrezinho, este não vai crescer muito! — Seu comentário fora refutado quando, aos quatorze anos, passei de um metro e noventa centímetros de altura.
Algumas semanas após o meu nascimento, recebi o sacramento do batismo no Santuário de Nossa Senhora das Mercês, tendo como padrinhos o meu irmão Fábio e minha irmã Flávia. Desde então, nunca precisei fazer uso de nenhum medicamento. Em 2013 obtive o Certificado Médico Aeronáutico, provando não haver nenhuma sequela da noite que passei no ventre de minha mãe com a bolsa estourada.
Entendemos esse ocorrido como um propósito de Deus que, pela intercessão de Nossa Senhora, me concedeu o dom da vida. De tal maneira que é meu dever fazer jus a essa oportunidade.
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