Navegar e Sentir

Calafrios pela manhã depois de uma noite turbulenta. A falta de lampejos para guiar os pensamentos é como nadar num lago sem margens, beirando sempre um precipício marcado pela dúvida do cair.

Sonhei com o barco das ilusões, navegando de um lado ao outro sem chegar a lugar algum. Lançada a rede de pesca, só veio os ecos de um passado afogado nas águas congelantes da esconsa vida repousada nas profundezas pedregosas. 

Frio exibicionista. Das últimas palavras direcionadas a ele, vem meter-se verbos diligentes para reger o coro das estações. O frio está em mim, mas permaneço resplandecendo nos entraves verbais. Pego, desmancho, mudo e reconstruo. Na esperança de encontrar beleza numa singela folha de um ramalhete sem flor. 

Eu era criança e não sabia. Brincava com a seriedade de um adulto em seu ofício. Labores de um ocaso quase esquecido nas fendas das rochas que se precipitaram diante do caminho. E quer saber mais? Cansei de falar sobre caminhos. De que valem se o relógio parou a ciranda compassada? Os segundos estrelados na obscuridade das horas se silenciaram e não testemunharam a história a ser contada. Portanto, ela nunca foi contada. 

Tornaram-se rochas. Rochas silenciadas. E assombraram os caminhos com o espectro austero na quietude das entrelinhas. Nunca sequer ousaram ecoar uma palavra para dividir o tesouro outrora reluzente, que permanece até então impregnado no calcário de seus fantasmas. Formaram pedreiras de segredos, e assim se fecharam num mundo privado de desejos. 

Dizem que lá de cima as estrelas choravam pelas histórias esquecidas. Perdidas no interior de grandes montanhas. Choraram tanto que as lágrimas caíam aos montes sobre a terra tão seca por falta de sentimento. Quando me fiz marinheiro, sabia que navegaria por águas sofridas, sem rumo, na esperança de um dia encontrar a terra que pudesse repousar. Mal sabia que o repouso se dava apenas no contexto do barco, livre de rotas, buscando nada abraçar senão o ato de navegar.

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