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Mostrando postagens de março, 2023

O Vendaval e a Simplicidade

Estou tendo pouco tempo para vir até aqui. Só vim agora porque me sinto bagunçado. Como se um tornado de acontecimentos tivesse passado pelo quintal e trocado as mudas de lugar. Tenho de recolocá-las no devido espaço onde se reconheceram preciosas. De vez em quando a gente tem de enfrentar ventanias. Eu mesmo fiquei cansado com tantas outras nos últimos meses que esta de agora pouca coisa fez senão uma bagunça corriqueira. O que eu preciso fazer é isto que estou fazendo: sentar-me e desembolar este novelo que o gato deixou no canto depois de tanto brincar. Vamos lá: venci a segunda semana como aluno da UFMG. Ponto! Só aí muitas flores já se abriram. Depois, vivi um dia de cada vez e aceitei aquilo que sou como uma virtude arranhada. Aprendi a não mais me envergonhar do que apresento para o mundo quando não sei como agir. Na maioria das vezes, eu não sei mesmo. E vou aprendendo no momento. O meu jeito de falar, a minha forma de andar, a minha respiração descontrolada, o meu nervosismo i...

Palavras Auxiliadoras

Escrevo este texto como forma de organizar as coisas. É sábado à noite. Um sábado bem diferente dos sábados que já vivi. Ele traz consigo a sensação de dever cumprido, a vivência que deu certo, a tranquilidade das horas e os espaços preenchidos. Na verdade, quem traz sou eu. E dissemino ao sábado aquilo que vivi ao longo da semana que passou. E como passou, indo aos extremos e se confortando com o compasso dos acontecimentos no devido tempo. Completo dizendo a mim: deu certo. E agora: uma nova caminhada se inicia. Sim, já tem uma semana que estudo na Universidade Federal de Minas Gerais. Letras! O curso dos meus sonhos, que nunca pude me lembrar quando acordava atordoado por noites mal dormidas. E aqui estou eu, falando sobre ele, com orgulho e brilho nos olhos. O entusiasmo renasceu das cinzas pela razão nobre de acordar todos os dias quinze para as seis, caminhar até o ponto, pegar o ônibus e atravessar os portões da universidade. Confesso que durante muitas aulas que tive, senti uma...

Lista de Sonhos

E então, cheguei aqui. Um processo difícil, quase inimaginável para o meu eu de dez anos atrás. Dez anos? Eu já era adulto àquela época, pelo menos no papel. E por falar em papel, estou me enveredando para o fim de mais um caderno. Talvez o primeiro que realmente terá um fim. Os outros acabaram sem acabar. Havia muitas folhas em branco a serem escritas, mas eu, com a imperfeição dos fatos, com a desorientação das ideias, com o raciocínio trincado, com a vontade de sempre viver algo que não fosse o agora, cedi à incompletude lancinante que me atordoava para um constante recomeçar. No desejo incessante de fênix frustrada por não conseguir renascer das cinzas, um recomeço era uma saída de emergência. Queria, mais que tudo, sair de mim mesmo por não me suportar. De fato, não suportava aquilo que se passava pela minha cabeça. Umas projeções que reconheci que nem eu mesmo era capaz de projetar. Havia algo na mente independente da minha força de vontade, que, por sinal, era bem fraca. No fund...

Café de Lembranças

Hoje pela manhã, ao invés de passar o café com água, passei-o com leite. Como fazia anos atrás em Juiz de Fora, no apartamento onde morava. Lembrei-me de quando trocava o dia pela noite e via o nascer do sol pelos vidros das janelas do quarto e da sala. Depois, tomava um banho demorado até resolver sair e ir à missa das sete. Quando finalmente retornava, conseguia dormir. Pelo fim da tarde eu levantava, ouvia uma ave-maria ao longe, e recomeçava o dia pelo seu final. Gostava de rezar o terço, acender uma vela, contemplar o crucifixo na parede e sonhar comigo sendo um frade franciscano. Queria, mais que tudo, a liberdade. E, pra isso, minha única saída seria enclausurar-me atrás das paredes de um convento. Àquela época, jamais pensaria que pudesse existir horizonte após o ano que convivi com o carisma de São Francisco. Certamente, encontrei a liberdade que tanto buscava e hoje, escrevendo este texto, percebo que  o longo e tortuoso caminho pelo qual andei valeu a pena. É estranho pe...

Uma Outra Pergunta

Doze de março, data curiosa para um domingo. Silencioso como todos os domingos. A curiosidade mesmo bateu à porta não pela data, mas pelo desejo de me fazer sentir o silêncio em palavras escritas. Quero saber o que está acontecendo comigo hoje. Já se passaram doze dias do mês e pouca coisa foi falada. Eu, que tanto semeei palavras, não as colhi neste dia curioso. Para um domingo, curiosamente, não tenho maneira de conduzir este texto senão jogando as sílabas fora. O pano branco de fundo, bem atrás de mim, mostra-se como o tecido onde mancho de tinta coisas importantes que foram esquecidas. É como desenterrar fantasmas já perdidos por gostar de ser assombrado. O vazio é mais assustador que o medo propriamente dito. Posso dizer coisas importantes, mas prefiro ilustrar o abstrato com fumaça colorida no espaço. Semanas se passaram; muitas semanas. E cá estou eu, perdido em um domingo outra vez. Certo dia me perguntei sobre quantas palavras gastei para chegar até aqui. Como se tais palavras...

Prefixos de Viver

Estou reaprendendo a me reencontrar. Neste jogo de prefixos repetitivos, refaço os caminhos sob novos olhares. Jamais perceberia o quão verde era a paisagem se não tivesse voltado para pegar as folhas que joguei para cima. Ainda bem que não choveu. Nenhuma delas se molhou ou se perdeu. Consegui, com custo, reunir os capítulos e narrar uma nova história apesar das letras conhecidas. Não é à toa que o caderno em que escrevo, ainda hoje, tem a capa verde. Na maior parte da viagem, foi verde a cor que mais vi e mais aprendi a amar. Tenho marcas nos pés pelos passos em falso que dei. Não são cicatrizes, mas marcas. Facilmente laváveis para recomeçar a caminhada com pegadas humanas, aceitando a fragilidade de pés que recusaram por anos os caminhos certeiros. Por isso se sujaram e aprenderam pela sola grossa que conquistaram resistência. Estou lidando com o tempo diferentemente de como lidava. Aprendendo, como sempre, a aceitar suas nuances de ondas do mar. O tempo precisa ser aceito, present...

Pena Solitária

Já nem sei mais sobre o que escrever. Amanhã meus pais virão a Belo Horizonte para me visitar e, então, comemorarmos juntos minha aprovação na Universidade Federal de Minas Gerais. Meu cérebro perdeu qualquer meio que utilizava para fazer poesia e deu lugar a uma confusão metal muito confundida com euforia. São muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. A venda do apartamento em Juiz de Fora também mexeu comigo esta semana. Fiquei feliz por saber que tudo deu certo. E certo fiquei por saber que provavelmente nunca mais morarei na cidade onde nasci. Digo provavelmente porque a certeza é apenas ilusão de uma manhã ensolarada. A escrita travou, de fato. Perdi o conhecimento das palavras. Não sei como se escreve isto ou aquilo. Todavia, fiz questão de vir aqui forçar a barra. Quero mesmo quebrar estes obstáculos no meu caminho. Estou no final de uma suposta manhã comum pensando nos passos que dei por aí. Quero, sobretudo, que este final de semana seja excelente. São meus pais que estão vind...