Uma Outra Pergunta
Doze de março, data curiosa para um domingo. Silencioso como todos os domingos. A curiosidade mesmo bateu à porta não pela data, mas pelo desejo de me fazer sentir o silêncio em palavras escritas. Quero saber o que está acontecendo comigo hoje. Já se passaram doze dias do mês e pouca coisa foi falada. Eu, que tanto semeei palavras, não as colhi neste dia curioso. Para um domingo, curiosamente, não tenho maneira de conduzir este texto senão jogando as sílabas fora. O pano branco de fundo, bem atrás de mim, mostra-se como o tecido onde mancho de tinta coisas importantes que foram esquecidas. É como desenterrar fantasmas já perdidos por gostar de ser assombrado. O vazio é mais assustador que o medo propriamente dito.
Posso dizer coisas importantes, mas prefiro ilustrar o abstrato com fumaça colorida no espaço. Semanas se passaram; muitas semanas. E cá estou eu, perdido em um domingo outra vez. Certo dia me perguntei sobre quantas palavras gastei para chegar até aqui. Como se tais palavras fossem o combustível de uma grande locomotiva. Então, estacionado, percebi que a floresta de onde conseguia minha matéria prima tinha sido completamente devastada, e eu precisava de encontrar um novo jeito para me locomover. Saltei do gigante de aço em que me encontrava. O trabalho agora era o de replantar tudo aquilo que um dia eu arranquei de mim pensando nunca mais precisar. Pois eu precisei, e tive de refazer os passos para trás como forma de avançar na minha busca incansável de sabe-se lá o que.
Na verdade, eu sei, sim. Eu busco a resposta de uma pergunta mal feita. Sempre me questionei: o que eu quero? Mas isso pouco importa. A pergunta correta é: para onde vou? Independentemente do desejo que carrego comigo. Às vezes é impossível controlar os passos. Contudo, em se sabendo aonde vai, qualquer um consegue planejar o que quer. Hoje, eu quero ser eu mesmo. Tarefa difícil quando se tem preocupações sobre o plantio de palavras. Por incrível que pareça, ainda carrego preocupações comigo. E ainda não consigo ser quem eu realmente sou.
Por sorte, ou por insistência, a cada domingo refaço a rota para me encontrar. Talvez eu esteja passando pela rua neste momento, talvez eu esteja me olhando no espelho ou talvez, quem sabe, eu esteja tentando chegar a algum lugar em que eu já cheguei e não me dei conta.
Comentários
Postar um comentário