Palavras Auxiliadoras

Escrevo este texto como forma de organizar as coisas. É sábado à noite. Um sábado bem diferente dos sábados que já vivi. Ele traz consigo a sensação de dever cumprido, a vivência que deu certo, a tranquilidade das horas e os espaços preenchidos. Na verdade, quem traz sou eu. E dissemino ao sábado aquilo que vivi ao longo da semana que passou. E como passou, indo aos extremos e se confortando com o compasso dos acontecimentos no devido tempo. Completo dizendo a mim: deu certo. E agora: uma nova caminhada se inicia. Sim, já tem uma semana que estudo na Universidade Federal de Minas Gerais. Letras! O curso dos meus sonhos, que nunca pude me lembrar quando acordava atordoado por noites mal dormidas. E aqui estou eu, falando sobre ele, com orgulho e brilho nos olhos. O entusiasmo renasceu das cinzas pela razão nobre de acordar todos os dias quinze para as seis, caminhar até o ponto, pegar o ônibus e atravessar os portões da universidade.
Confesso que durante muitas aulas que tive, senti uma emoção forte consumir o meu coração. Nada de tristezas. Era a alegria de perceber que, apesar do tempo passado, consegui dar a voltar e pegar a locomotiva perdida que me levasse àquilo que sempre me pertenceu. Ah, foi uma sensação única. Algo que jamais senti. Aprendi, verdadeiramente, que mundo dá voltas. E foi em uma dessas que eu pude me reencontrar. Quando eu poderia pensar que isso fosse acontecer depois de tantos anos? Nunca! Mas então aconteceu. E eu aceitei. E venho aceitando tudo o que me é dado. Também venho entendendo o que é tranquilidade. Uma forma completamente abstrata que não precisa ser racionalizada. Só vou vivendo. Fazendo o meu melhor. Caminhando como posso. Aos poucos, vou recuperando a identidade que perdi muito cedo. Cedo ao ponto de não me lembrar como era. Mas agora, em momentos diversos, tenho lances de um sobrevivente que sobreviveu no espaço vazio.
Posso soltar a minha voz sem medo. Posso descontrolar a respiração sem me abalar. Posso lidar com as emoções de forma madura. Posso desaprender e reaprender. Posso perguntar ou optar pelo silêncio. Não quero ser o que não sou. Mas se algum dia for tudo aquilo que pensei, que seja tropeçando, caindo e levantando. Assim poderei me orgulhar da caminhada. E terei muitas coisas para contar. A começar pelo dia em que entrei, pela primeira vez, na sala de aula de uma faculdade pública. Como eu queria dividir isso com o Filipe que estudava no Santa Catarina. Como eu queria conversar com ele, no banco da praça onde ele ficava esperando o tempo passar. Falaria sobre tantas coisas, principalmente sobre aquelas que confortaria o seu coração.
Naquela época, fazia de tudo para negar a realidade. Hoje, vivo de ser real. Com todas as falhas que um ser humano pode ter. Foi desse jeito que encontrei a felicidade. Nas pequenas coisas, nos jardins despercebidos, dos detalhes banais, nas companhias especiais. Todos os dias acontece algo para fazê-lo único. Agora há pouco, quando estava caminhando pelas ruas do bairro, pude contemplar um céu cor de rosa e um pôr do sol magnífico. Isso me fez lembrar do Filipe de Mar de Espanha, que trocaria tudo para permanecer dentro do quarto. A vida, de fato, pode nos dar várias faces. Foram muitas e muitas que me trouxeram até aqui. Até a capital de Minas Gerais, para fazer a minha história. Estas sandálias que calço tem mais pegadas do que o chão pode mostrar. Isso porque muitas vezes caminhei estando no mesmo lugar. A solidão de um apartamento vazio em Juiz de Fora pode ser medonha, mas também pode dar ensinamentos preciosos que serão úteis por toda a vida.
No mais, estarei com as palavras. Elas que me acompanharam pelas faces da vida, não soltaram minha mão. Não desistiram de mim, quando me encontrava no fundo do poço. Foram elas que me guiaram até a saída. Conduziram meus passos. Ecoaram a minha voz. E agora, mais uma vez, estão me dando um novo sentido para viver.

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