Lista de Sonhos

E então, cheguei aqui. Um processo difícil, quase inimaginável para o meu eu de dez anos atrás. Dez anos? Eu já era adulto àquela época, pelo menos no papel. E por falar em papel, estou me enveredando para o fim de mais um caderno. Talvez o primeiro que realmente terá um fim. Os outros acabaram sem acabar. Havia muitas folhas em branco a serem escritas, mas eu, com a imperfeição dos fatos, com a desorientação das ideias, com o raciocínio trincado, com a vontade de sempre viver algo que não fosse o agora, cedi à incompletude lancinante que me atordoava para um constante recomeçar.

No desejo incessante de fênix frustrada por não conseguir renascer das cinzas, um recomeço era uma saída de emergência. Queria, mais que tudo, sair de mim mesmo por não me suportar. De fato, não suportava aquilo que se passava pela minha cabeça. Umas projeções que reconheci que nem eu mesmo era capaz de projetar. Havia algo na mente independente da minha força de vontade, que, por sinal, era bem fraca. No fundo, não sabia o que queria.

Foi quando surgiram as palavras. E das palavras surgiram caminhos. E dos caminhos, paisagens. Das paisagens, acontecimentos. Dos acontecimentos, ideias. Das ideias, projetos. Dos projetos, esperança. Da esperança, força de vontade. Da força de vontade, o silêncio da mente. Consegui, a grosso modo, espantar o que me assustava. E então vieram os cadernos. Os primeiros se perderam. Depois, fui pegando o jeito. Aceitei a dissemelhança da minha caligrafia a depender do dia em que escrevia. Ora estava agradável, ora repulsiva. E tudo era a expressão do reflexo que não aparecia no espelho.

Não sei como terminar. A tarde se estende ao infinito. O sol, depois de tantas horas, ainda arde. Ele está aqui, no quarto onde escrevo, fazendo-se presente com as palavras. Estão esperando pelo ocaso das sílabas como eu espero por meu nome numa lista de sonhos. Sonho comigo mesmo, sendo quem sempre fui. A lista pouco importa. Se é para ser, será. Diante de todos os nomes, o que mais tem valor são as histórias que cada um carrega por trás dos sonhos que semeia.

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