Pena Solitária

Já nem sei mais sobre o que escrever. Amanhã meus pais virão a Belo Horizonte para me visitar e, então, comemorarmos juntos minha aprovação na Universidade Federal de Minas Gerais. Meu cérebro perdeu qualquer meio que utilizava para fazer poesia e deu lugar a uma confusão metal muito confundida com euforia. São muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. A venda do apartamento em Juiz de Fora também mexeu comigo esta semana. Fiquei feliz por saber que tudo deu certo. E certo fiquei por saber que provavelmente nunca mais morarei na cidade onde nasci. Digo provavelmente porque a certeza é apenas ilusão de uma manhã ensolarada.

A escrita travou, de fato. Perdi o conhecimento das palavras. Não sei como se escreve isto ou aquilo. Todavia, fiz questão de vir aqui forçar a barra. Quero mesmo quebrar estes obstáculos no meu caminho. Estou no final de uma suposta manhã comum pensando nos passos que dei por aí. Quero, sobretudo, que este final de semana seja excelente. São meus pais que estão vindo à capital. Um prestígio singular para o menino que fui um dia, sozinho naquele apartamento recém-vendido. Por mais que hoje em dia eu não encare a solidão, conheço seus trejeitos e sua voz. Convivi com ela por dois anos e meio, sem horários e compromissos, descendo pelas encostas do Morro do Cristo e se estendendo pelo bairro Santa Helena até chegar num prédio modesto, mas muito confortável. Itaboraí, seu nome, significando pedra bonita. De fato, o verde se projetando pela janela do segundo andar, mostrando a imponência da pedreira, era muito bonito. Infelizmente, os cadernos onde escrevia àquela época se perderam. São relatos que um dia se perderão da minha memória também.

Ah, Juiz de Fora. Esta semana foi ceifado o último vínculo que ainda tinha com você, pelo menos no campo da matéria. Afinal, sempre estivemos conectados desde o dia em que chorei pela primeira vez na maternidade Therezinha de Jesus. O que posso fazer? A vida me trouxe para Belo Horizonte, cidade que aprendi a amar. Não falo isso com tristeza, mas com alegria de ter aceitado o que a vida tinha a me oferecer. São páginas e mais páginas de uma história que ainda não acabou.

Desci, peguei água para beber, pensei em outras coisas e voltei. Já não posso dizer qualquer coisa relacionada ao inexistente. Voltarei ao jogo, à fase que tenho de passar, e não usarei as palavras como uma janela aberta para me refrescar. Hoje, graças a Deus, tenho uma janela de verdade. E ela está aberta! Contudo, as palavras voltaram a ser palavras, na mais pura das formas. Quando escrevi o primeiro texto por aqui, estava lá, naquele apartamento, pensando numa vida enclausurada. Agora, na última hora da manhã, penso na liberdade que conquistei. Haverá outros textos, depois de muitos pontos finais; por isso não posso falar como falei na derradeira noite ouvindo os sinos da Igreja Melquita de São Jorge. Lembro-me muito bem de como eu era. Isso me ajudará no processo de desenvolver quem eu quero ser um dia.

Talvez, professor. Sim, professor! Coragem para escrever. É uma nova fase que se inicia. Nos bolsos, apenas lembranças. Não há espaço para a insegurança de não ter feito valer quando nada valia. Existe valor no agora, neste exato momento; e é aqui que faço valer, de dentro para fora, a pena solitária que usei para voar. Voei, e voei bem longe!

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