Café de Lembranças

Hoje pela manhã, ao invés de passar o café com água, passei-o com leite. Como fazia anos atrás em Juiz de Fora, no apartamento onde morava. Lembrei-me de quando trocava o dia pela noite e via o nascer do sol pelos vidros das janelas do quarto e da sala. Depois, tomava um banho demorado até resolver sair e ir à missa das sete. Quando finalmente retornava, conseguia dormir. Pelo fim da tarde eu levantava, ouvia uma ave-maria ao longe, e recomeçava o dia pelo seu final. Gostava de rezar o terço, acender uma vela, contemplar o crucifixo na parede e sonhar comigo sendo um frade franciscano. Queria, mais que tudo, a liberdade. E, pra isso, minha única saída seria enclausurar-me atrás das paredes de um convento. Àquela época, jamais pensaria que pudesse existir horizonte após o ano que convivi com o carisma de São Francisco. Certamente, encontrei a liberdade que tanto buscava e hoje, escrevendo este texto, percebo que  o longo e tortuoso caminho pelo qual andei valeu a pena.

É estranho pensar no passado e encarar a sensação de ter vivido outra vida. Às vezes sinto cheiros daquele tempo tão distante. É como se eu me transportasse de volta para um ambiente quase perdido na memória. Com o passar dos dias, as imagens vão ficando mais embaçadas. Chegará o tempo em que os únicos relatos sobreviventes serão as palavras. Diante disso, confesso que nem eu sei ao certo o que vivi durante os dois anos e meio que passei sozinho em Juiz de Fora antes da minha entrada na Ordem dos Frades Menores. Conheci algumas pessoas que foram importantes para mim por me guiarem no processo ainda que de forma involuntária. Convivo com a realidade de que jamais voltarei a reencontrá-las. Por isso entendo que tudo tem o seu momento e que cada momento desse tudo é eterno a depender do ponto de vista.

Como é possível o fato de que, quando olhamos de fora, tudo parece uma única coisa? Pois é assim que vejo o período de maior introspecção da minha vida. Quando estava lá, era complexo e difícil; agora, releva-se como um meandro nos trilhos da vivência. Aquelas cores, aquelas vozes, aquelas paisagens. Foram-se com o tempo. Mas o tempo continua aqui. Fazendo letras após letras formarem palavras de lembranças profundas. E por serem assim, tão profundas, nem eu consigo resgatá-las inteiramente. Muito se perdeu. É a artimanha que o tempo utiliza para não ficarmos presos no passado.

Eu podia compreender, mesmo que de vaga maneira, que algo substancialmente melhor me era reservado. Atualmente, momento em que vivo tais coisas melhores, aprendi a confiar de mãos abertas. Todas as palavras que conduzi até aqui são nada mais que um desabafo. Algo que estava dentro e precisava sair. De fato, é melhor passar o café com água.

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