Prefixos de Viver
Estou reaprendendo a me reencontrar. Neste jogo de prefixos repetitivos, refaço os caminhos sob novos olhares. Jamais perceberia o quão verde era a paisagem se não tivesse voltado para pegar as folhas que joguei para cima. Ainda bem que não choveu. Nenhuma delas se molhou ou se perdeu. Consegui, com custo, reunir os capítulos e narrar uma nova história apesar das letras conhecidas. Não é à toa que o caderno em que escrevo, ainda hoje, tem a capa verde. Na maior parte da viagem, foi verde a cor que mais vi e mais aprendi a amar.
Tenho marcas nos pés pelos passos em falso que dei. Não são cicatrizes, mas marcas. Facilmente laváveis para recomeçar a caminhada com pegadas humanas, aceitando a fragilidade de pés que recusaram por anos os caminhos certeiros. Por isso se sujaram e aprenderam pela sola grossa que conquistaram resistência.
Estou lidando com o tempo diferentemente de como lidava. Aprendendo, como sempre, a aceitar suas nuances de ondas do mar. O tempo precisa ser aceito, presente, constante e ordenado, ainda que suas impressões sejam marcadas pela força que desempenha na face de quem o acompanha.
Sim, eu o acompanhei. Por isso falo do tempo com a voz de quem aprendeu a viver marcado por sua passagem. Se recomeço a cada dia, é pelo tempo que dá luz à manhã despercebida.
Agora, já noite, vi uma lua amarela atrás de nuvens rarefeitas. Não sei sobre o que escrevi durante o dia. Sei apenas que estou cansado de palavras vazias. Cansado do jogo de sílabas para mostrar pontos de vista. Cansado de viver destacando dobraduras em papéis amassados. Sabe de uma coisa? Eu não quero mais aparecer pintado na parede da sala, não quero mais pisar nos tapetes que imaginei quando criança, não quero mais construir uma torre para subir até o alto. Se possível, quero uma horta. Plantar o que como. Somente isto.
Dar opiniões é tarefa cansativa. Desejo lustrado de vaidade é pesadelo que transpassou a noite e varou o dia. A escrita continua sincera depois de todo esse tempo. Ao menos, venho tentando semear a sinceridade escrevendo. Queria dizer mais uma coisa, mas ela se perdeu. Ah, sim, claro. Talvez demore mais alguns meses para eu começar a estudar. Sobre isso, estou bem. Terei mais tempo para consolidar a minha essência, e não perdê-la na primeira ventania.
Sei o que quero. Também sei para onde vou. Antes de sonhar com as Letras, eu já escrevia. Antes de me imaginar em uma sala de aula, eu já falava sobre livros. De fato, houve uma pena que pensou mais que as outras, ao ponto de ser pensante. Depois dela, centenas de livros vieram parar sobre a minha mesa. Mesa esta que já nem existe mais. Tudo tem um porquê. O meu porquê é sim. O talvez ficou para trás, muito longe de onde estou agora. E o não está envolvido com dias mais cinzentos, bem diferentes dos que tenho vivido hoje. O sol entra todos os dias pela minha janela. Coisa impensável tempos atrás.
Você percebe que agora eu posso ser tudo o que sempre quis? Eu só preciso me dar a oportunidade de fazer algo grandioso. De parar de pensar no que houve ou no que haverá. Existem coisas acontecendo agora. Elas passam despercebidas porque não sei reconhecer o presente. Presente perdido na multidão. Depois dessa hora eu vejo o que farei da vida. Até lá, é importante que saiba da existência de palavras ocultas depois desse ponto final.
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