Amoras e Pores de Sol
A palavra de hoje é: imprevisto. E eu nem sei se este texto terá um fim. Hoje o dia foi cheio. Desde o seu princípio, quando estava no ponto e pude conversar com uma mulher que lá encontro todos os dias, até o seu fim, quando fiz minha caminhada e aconteceram coisas curiosas.
Percebi que preciso focar, verdadeiramente, nos meus pensamentos. E não fingir que estou fazendo isso. Agora mesmo não consigo lidar com eles. Por isso uma música ocupa o vazio e faz com que as palavras saem da mente pesada. Não estou reclamando de nada. Longe de mim. Estou apenas me fortalecendo no campo mental. Para isso, existe um peso a ser erguido. Este peso, então, é a capacidade de lidar com coisas impensáveis. O foco desejado é justamente o nó que vai amarrar o processo em uma só coisa.
Sim, minha vida mudou muito. Em muito pouco tempo. Quando caminhei hoje, estava pensando nas minhas fraquezas. Foi quando uma amora caiu em minha cabeça sem eu saber que se tratava de fato de uma amora. Passei a mão para averiguar se não era um bicho infeliz e manchei meus dedos de roxo. Não parei de caminhar. Continuei, apesar das manchas que se espalhavam agora pelas duas mãos. Isso porque tentei limpar uma usando a outra. Depois, o fato foi esquecido. Em determinado ponto, avistei um pôr do sol incrivelmente estonteante. Uma poesia no céu alaranjado, com certeza. Algo que fugia do campo verbal para avançar pelos capins da surpresa. O que era uma amora na cabeça perante aquele único instante de delírio poético? Seria o mesmo que comparar o mar com o grão.
Virei as esquinas. Quando já me endireitava pelo caminho de volta, a noite estava presente. Em um dos meandros mais banais de todos os dias, a lua se projetou bem à minha frente. Cheia e circularmente perfeita. Foi o estalo do imprevisto. Uma canção de passos por calçadas tão pisadas que, por um anoitecer, ganhavam a preciosidade de grandes aventuras. Como a caminhada de todo dia pôde me revirar do avesso? E o que houve para que o ordinário se moldasse de estrelas preciosas? Foi além do extra que às vezes o servia de prefixo.
Cheguei em casa. Tomei banho. Pensei na vida. Os episódios impensados que vivi durante dias e dias são um pé de amoras maduras. Eu, na maioria das vezes, apanho-as por vontade própria. Outras vezes, não consigo dar conta de todas as frutinhas. Algumas caem. Isso costumava me entristecer. Ou então me deixar com raiva. Só agora, depois dos imprevistos, compreendo que tudo faz parte da colheita. Até mesmo aquilo que é deixado para trás. Existe um motivo para isso. É o porquê de todas as coisas, usualmente encaixado, levantando a plateia em aplausos. Bom mesmo é saber que embora haja manchas nas mãos, nas roupas, nos cabelos, elas não duram para sempre. E que os espetáculos acontecem para todos.
Fico feliz de ter continuado a caminhar. Do contrário, não estaria por aqui escrevendo algo sobre amoras e pores de sol. A vida é mesmo um trânsito de surpresas. Para tanto, pouco importa as horas. Aqueles que contemplam o dia por completo podem sim avistar pomares de sobressalto. O imprevisto é isso: um lugar conhecido que deixou de ser lugar.
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