Por Acaso
Neste fim de domingo, consegui fazer tudo o que precisava. Agora, jogo os dados na mesa, brinco com a sorte, penteio os cabelos do tempo, sabendo que vou sonhar à noite. A sensação de estar fazendo o melhor que se pode é uma estrela solitária na noite escura. Eu mesmo tive medo de apontar-lhe o dedo, acreditando que fosse nascer uma verruga em mim quando assim o fizesse. Apontar para uma estrela: marca d´água cheia de nuances e crendices supérfluas para sabotar a beleza do simples.
Não acreditava que fazia o meu melhor exatamente por isso. Por ser simples demais. Amanhã, mais uma vez, contemplarei o dia em sua plenitude. Desde o seu nascer, até o seu ocaso. Quisera eu usar a palavra "poer" para trazer à tona uma harmonia forçada. Ocaso que é ocaso, lembra acaso. Entre os casos de todo dia, muitos sóis já se puseram. De todos os "por acasos", contemplar o nascer de um entre tantos dias é o mais sublime. É a forma mais poética de se recomeçar. De se redescobrir.
Eu acredito que posso caminhar com mais tranquilidade. Não exercendo a força contrária que tanto me cansava quando não aceita os caminhos. Por isso estou de mãos vazias, escrevendo um texto sobre recomeços. Algo pequeno, porém tão profundo quanto se pode ser com as palavras. É a verdade se camuflando na forma das consoantes, ganhando pernas com as vogais, andando pelas linhas que não sentem mais o peso dos trens. A própria verdade palavreada é a locomotiva que leva a carga para onde for.
Tem de carregar nas costas por não ser movida a vapor. Tem de aceitar o tempo por não ter rodas que a fizesse correr. Tem de enfrentar os meandros como aventuras. Tem de memorizar as paisagens para, quando passar, ter histórias nos bolsos e asas no coração. Este é um texto sem fim. Foi perdido para sempre o desfecho perfeito. Bem como as poesias que já pensei em escrever e não escrevi. Estão todas no mesmo lugar. Sem nomes e sem origens. Apenas uma marca no tempo, dando a prova de que quase existiram.
Comentários
Postar um comentário