Meio-dia e as Reticências

Por um instante eu me cansei de ser eu mesmo. Foi como se tudo tivesse se tornado, sem mais nem menos, tediosamente esfumaçado. E essa fumaça vinha adentrando as narinas, ardendo minha cabeça, capengando pelas encostas do pensamento e moldando-se na pergunta: quem sou eu? Fora dessa roupagem de chatice para ser um capricorniano verdadeiro de vinte e dois de dezembro. Mas não! Dizem por aí que, a partir dos vinte e oito, o ascendente toma conta. Peixes! Uma emoção descontrolada depois de ter sido tantas vezes pedra escavada do rochedo. Pois é; como a vida muda em pouco tempo. Daí, pela manhã caminhei sem rumo para fechar a semana com feriado na sexta. Queria ser, mais que tudo, simpático. Mas não estava conseguindo o tanto quanto gostaria de ser. Vieram-me pensamentos insanos, fantasmas da claridade. Coisas esquecidas e vozes caladas. Muitas vozes que resolveram falar todas ao mesmo tempo. Uma se sobressaiu: seria eu um verdadeiro amigo? Para quem ficou anos a fio conversando com paredes e paredes sem quadros, a amizade é reluzente como uma joia. À vista cansada, pode desnortear. Diante disso, preciso confessar que estava totalmente cansado.
Então, desci o morro de volta para casa. Era exatamente meio-dia. Alguma coisa diferente me consumia. Comecei a pensar no mistério do horário. O que era o meio-dia? Uma hora vaga, quase despercebida, que poucos conseguem entender. Eu mesmo não entendo. Meio-dia e o seu misterioso caso de ser o meio termo da vida vivida. Coisas podem acontecer antes e depois sem afetar a estaca cravada nas dunas da mente. Aqui você chegou, e daqui passará sem ver, pois é onde o sol não dá sombra para guiar ou ser guiada. Outras vezes meio-dia significou despertar. Contudo, especificamente neste, eu já estava desperto. E vi preâmbulos de nuvens no céu guiadas pelo vento. O sol ali, quieto e violentamente forte, sendo canção e delírio para as almas desavisadas. Não foi o meu caso. Fui avisado de que era meio-dia. E segui descendo o morro pensando nos mistérios que jamais conseguirei desvendar.
Amanhã é sexta-feira santa. Um dia de silêncio e reflexão. Uma oportunidade para me entender como pessoa que oscila entre ser e não ser. Hoje eu me cansei de ser. Amanhã, talvez, eu me redescubra sendo. E muitos outros meios-dias virão para me fustigar com charadas indecifráveis. Agora que tudo isso se distanciou, e o relógio mostra que passou das seis, posso me ausentar da tormenta da identidade identificando-me como reticências. E sem querer descubro a chave do mistério que me assolou: meio-dia, então, nada mais é do que reticências. A fumaça que me escureceu a vista foi a vontade de colocar pontos finais enquanto o autor ainda queria escrever. Todos os dias de uma só vez trazem ensejos desirmanados, enquanto um único dia nivela a essência do existir compondo poemas em uma serra de montanhas graciosas. Ora subimos, ora descemos. E assim montamos o cenário da trilha que marca a hora de ser o que é.

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